Papa Francisco comove-se com carta enviada por jovens argentinos que trabalhavam com padre assassinado
A dois meses da morte do padre Juan Viroche, na localidade de La Florida, na província de Tucumán, no noroeste da Argentina, o Papa Francisco agradeceu a carta que lhe foi enviada por um grupo de jovens que trabalhavam junto com o sacerdote.
«Realmente, a carta dos jovens foi escrita com o coração. Fez-me bem» – comentou o papa.
O padre Viroche apareceu morto em circunstâncias pouco claras. O caso está sob investigação. Há duas versões para os factos. Uma afirma que ele foi assassinado por um grupo de narcotraficantes que o próprio sacerdote investigava; outra diz que ele se suicidou.
Fonte: MDZ, Nacionais, 6 de dezembro de 2016
Esta é a carta enviada pelos jovens
- aspirantes e jovens da Ação Católica, original em espanhol, aqui: https://www.facebook.com/Acción Católica Nuestra Señora Del Valle -
ao Papa Francisco:
«Nenhum começo é fácil, menos este, em que se trata de falar de ti, de contar como és e como foste com todos nós… É que temos tanto para dizer, todas as palavras mais belas se juntam para te descrevermos, os adjetivos parecem pequenos para poder definir-te e os verbos não podem conjugar tanta grandeza.
Quando chegaste eras tão singular, eras a diferença bem marcada, saías do estereótipo do padre conservador com estola. Como esquecer esse dia em que te conhecemos, desceste da moto ‘chopera’ e tinhas uma jaqueta de couro, eras um bicho raro, sim eras algo estranho. Escutámos muito que se dizia acerca do teu aspecto, típico da gente do povo, «É esse o pároco?»; «Viste como se veste?», «Não usa batina?».
Mas com o tempo percebemos que tu eras a revolução, porque chegaste aqui e mudaste-nos a todos, juntaste-nos, amontoaste-nos, uniste-nos.
Despertaste-nos! Deste-nos forças, deste-nos oportunidades, deste-nos espaço, deste-nos confiança, e não só essa confiança de que tudo pode mudar … Mas essa confiança de que nós, além de crermos num mundo melhor, o criamos. Deste-nos fé, deste-nos amizade, deste-nos consolo, abraçaste-nos e deste-nos o teu amor. Ensinaste-nos muito através das tuas palavras e através do tempo, ensinaste-nos com o exemplo, com as tuas ações. Fizeste-nos viver o evangelho e levá-lo a todos os lugares, contagiaste-nos com esses anseios de acreditar e de fazer …
Que bela maneira a tua de semear o amor! E aqui estamos todos, sentindo a tua falta todos os dias, com dor, mas também agradecidos a Deus e à vida por nos ter dado a oportunidade de compartilhar com um indivíduo tão único. «Diferente de todos, sacerdote como nenhum, homem sábio, fã do santo, lutador, amante da vida, brincalhão e entusiasta, contestador, amigo de muitos, padre da gente, das crianças, dos jovens.»
Este homem é, foi e será a imagem fiel de Cristo aqui na terra, o seu olhar nos transmitia luz, fé e esperança; o seu sorriso, o seu humor, que tanto o caracterizava e a tantos contagiava. As suas palavras vinham sempre na hora certa, os seus abraços que faziam uma pessoa recomeçar, que a levantavam e a animavam a olhar para a frente e ver que nada está perdido.
Esses abraços que perfuravam a sua alma chegavam até aos ossos, e curavam; que grande amigo, desses encontram-se muito poucos. Foste o nosso samaritano, limpaste, lavaste e curaste as nossas feridas, levaste-nos para a hospedaria, sim essa hospedaria que era a capela, o grupo de jovens onde ríamos, cantávamos, chorávamos, mas acima de tudo, aprendíamos a extraordinária capacidade de amor e de oferecer esse amor aos outros. Amaste-nos com entrega, com humildade e com paciência. Amor.
Despedimo-nos, embora não seja o que queríamos, gostaríamos muito de continuar a falar de ti, sim de ti, “o padre cura”, acreditamos que com todas as nossas histórias até poderíamos escrever-te um livro, cheio de lembranças e ensinamentos que guardamos como tesouros da alma. «Se alguém quiser saber sobre você, que nos escutem, que nos procurem.»
Esta é a verdade sobre Juan, o exemplo mais próximo a Cristo que conhecemos, o homem que revolucionou e transformou a vida de cada jovem, de cada criança, de cada adulto que teve o privilégio de conhecê-lo.
Padre, não estás morto, estás mais vivo do que nunca nos nossos corações, não te calaram, somos a tua voz e vamos levar-te onde quer que vamos, onde quer que estejamos, a todos os lugares, sempre. Fazemos nossas as tuas palavras, com dor mas com segurança, e te dizemos: que o encontro com Jesus nos faça crescer sempre na fé, na esperança e no amor. Um abraço no céu, padre cura.»


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