Recebemos de Willy Schefer,
padre que casou, de Buenos Aires, o relatório de uma significativa e
promissora reunião dos padres argentinos que casaram, ocorrida em novembro de
2016. O assunto: a resposta
pessoal do Papa Francisco a uma carta de um padre casado argentino sobre
a situação dos padres casados hoje na Igreja. No mesmo dia da reunião na
Argentina, Francisco visitava a as famílias de sete padres casados, num
apartamento nos arredores de Roma. Eis o Relatório, traduzido por João Tavares, padre português casado com Sofia, brasileira, da Associação Rumos:
«Nos dias 11 e 12 de novembro do ano
passado foi realizada em Pontevedra, Buenos Aires, um encontro de
sacerdotes que, por várias razões, deixaram de exercer o ministério. Fomos
acompanhados por dois irmãos leigos que nos enriqueceram com sua hospitalidade,
o seu interesse em nosso tema, sua sabedoria e suas histórias de vida.
A iniciativa partiu de uma carta
enviada ao Papa Francisco por um padre nessa situação, na qual ele
comentava esta realidade eclesial e pedia simplesmente
que a Igreja se ocupasse em pastorear essas ovelhas, que antes também tinha
sido pastores e agora são considerados quase com desgarradas.
Francisco, fiel ao seu estilo, respondeu
do próprio punho e letra e tratando o seu interlocutor – e a todos os que
estão na mesma situação – de “querido irmão” e
assumindo como real o que estava a ser solicitado. «Não é uma questão difícil», disse ele.
Esta resposta do Papa mobilizou fortemente
o autor da carta e surgiram dois resultados concretos:
· Um livro: “Querido irmão”, onde,
com outros dez sacerdotes, agradecem ao Papa sua resposta fraterna e lhe contam
resumidamente suas histórias;
· E o encontro/retiro que estamos a reportar.
Providencialmente e como expressão
concreta da sua resposta no mesmo dia que acontecia a reunião em
Pontevedra, o Papa Francisco visitou Roma sete
sacerdotes e suas respectivas famílias…
O pedido da carta começa a materializar-se: o pastor sai e vai procurar a sua ovelha, o pai vai ao
encontro dos seus filhos (irmãos).
O que vivemos naquele fim de semana foi
muito intenso para todos os que participamos.
· Cada história de vida tocava o coração dos
demais e nos fazia ficar com a emoção à flor da pele.
· Cada vida, cada história tem a sua riqueza e a sua diversidade.
· Muitos deixaram o ministério por, no rito
romano da Igreja Católica, o ministério não ser compatível com o casamento;
· Outros por outros tipos de crise, como o
forte stress por excesso de trabalho, visões diferentes das dos seus
superiores, ou outras questões pessoais.
· Todos, porém, concordámos que deixamos o
ministério, mas não a vocação, ou, dito de outra forma, que deixamos o ministério,
mas o ministério não nos deixou.
Cada um continuou de alguma forma o seu
sacerdócio,
· Seja vivendo plenamente a sua vida
familiar (às vezes trespassada por fortes dores que fazem experimentar a cruz,
onde Cristo foi propriamente sacerdote),
· Seja, reintegrando-se em alguma comunidade, executar determinadas tarefas apostólicas, conforme lhes era solicitado (grupos
bíblicos, missões, catequese e até mesmo algumas celebrações que um leigo
poderia realizar),
· Seja trabalhando pelos pobres ou pelos direitos
humanos, seja através de artigos em revistas ou subsídios litúrgicos, seja por
meio do ensino, da psicologia, da política ou no campo da saúde…
É verdade que nem todos desejamos a mesma
coisa quanto a exercer novamente o ministério. Alguns poderiam fazê-lo de bom
grado se a Igreja permitisse, outros iriam pensar, alguns pediriam permissão
para casos específicos, outros, talvez menos, já não o fariam.
Há aqueles que anseiam por consagrar o
Corpo e Sangue de Cristo e quase chegam a estender a mão na hora da missa,
outros gostariam de confessar, emprestar os seus ouvidos e o seu coração às pessoas
e dar-lhes o perdão de Deus. Cada um, de acordo com o que experimentou de
maneira especial no seu exercício do ministério.
Em algumas dioceses há, desde algum tempo, reuniões
destes sacerdotes. Em algumas, o bispo acompanha-os de perto e lembra-lhes que
eles não são “ex-sacerdotes”, mas sim sacerdotes. Sacerdotes para sempre,
porque teologicamente sabemos que o sacramento imprime caráter e vivencialmente
assim o experimentamos.
Embora reconhecendo que não tenhamos
podido cumprir uma promessa que fizemos, e sem querer parecer arrogantes,
algumas pessoas disseram que,
· em vez de acreditar que cometemos uma
falta grave (como é muitas vezes nos quiseram fazer sentir), provavelmente devemos sentir-nos escolhidos para mostrar, com humildade, que é possível viver e exercer o ministério
também sendo casados.
Talvez sejamos um sinal profético.
E, de facto, nós concordamos e aderimos a
essa reflexão.
Por isso,
· Não basta queremos simplesmente pedir
alguma coisa para a igreja. Pelo contrário, estamos dispostos a
perguntar a Deus o que Ele nos pede, a nós em primeiro lugar, e àqueles que na
Igreja que podem tomar decisões.
O que Jesus quer de nós? O que quer que a
Igreja faça com a nossa realidade?
Que o Senhor complete e aperfeiçoe a
obra que começou em nós (cf. Fl. 1,6 e ritual da Ordenação).


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