«Se hoje o meu irmão estivesse aqui, eles matá-lo-iam de novo», entrevista com Gaspar, irmão do Beato Oscar Romero
Gaspar Romero é o mais novo de sete irmãos do Beato de El Salvador, nascidos do casamento de Santos Romero e Guadalupe Galdámez. É jovial e lúcido, do alto dos seus 87 anos.
Informo-o do encontro que acabo de ter com o padre Rafael Urrutia, o postulador da causa de beatificação de seu irmão Óscar Arnulfo e sobre a notícia de que a documentação sobre um quarto milagre, pelo qual talvez seja reconhecido como santo, acaba de ser enviada a Roma para ser examinada pelos membros da Congregação do Vaticano encarregada do assunto. Os outros dois casos de supostas curas inexplicáveis, a de um equatoriano e a de um mexicano, ainda estão a ser estudadas em El Salvador.
Entrevista de Alver Metalli, em www.tierrasdeamerica.com, 26 de dezembro de 2016.
Foto laprensa.hn
Mostro-lhe uma fotografia tirada do site salvadorenho Supermartyrio.
Na imagem, desbotada pelo tempo, vê-se a mãe Guadalupe Galdámez de Romero, com longos cabelos escuros, e os seus filhos: Oscar Arnulfo, à esquerda, empoleirado na borda de uma poltrona com Zaida, Rómulo nos braços da sua mãe e o mais velho, Gustavo, de pé ao seu lado. A fotografia – explica o sitio que a publicou pela primeira vez – foi tirada a 21 de novembro de 1922, quando Óscar Arnulfo tinha 5 anos e, para todos os efeitos, é a mais antiga imagem conhecida de Romero criança.
– Mas o senhor não está na foto.
– Eu vim depois – diz sorrindo. – Os desta foto já morreram todos.
Os únicos que ainda estão vivos são ele e Tibério Arnoldo Romero, radicado em San Miguel, onde Óscar foi primeiro seminarista e depois bispo.
– O que se sente ou como se vive com um irmão quase santo?
Gaspar Romero admite que nunca pensou que aquele irmão, com o qual cresceu, poderia chegar a ser santo.
– Vivíamos juntos e eu via o seu carácter... – Vê-se que procura a palavra apropriada para definí-lo. – Diferente – diz, depois em tom muito contido. – Mas lembro-me de uma previsão da minha mãe – revela.
Era o ano de 1942, Romero ainda se encontrava em Roma para completar a sua formação académica na Pontifícia Universidade Gregoriana.
– Falando com ela sobre o aniversário de Óscar Arnulfo a 15 agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, recordo perfeitamente que ela me disse que "ele chegaria muito alto".
Não diz se pensava no céu dos bem-aventurados ou dos santos, e com modéstia desvia a conversa para o papa atual, que não conhece pessoalmente, mas apenas por correspondência.
– Foi ele (Papa Francisco) que tirou o processo de beatificação do pântano em que se encontrava. Sei que não avançava devido à oposição que havia aqui entre nós, em El Salvador.
Dá alguns nomes, uns bastante conhecidos, outros menos. Lembro-lhe que o papa, depois da beatificação, usou uma expressão muito forte, de martírio sofrido até depois da sua morte, um martírio "que continuou depois do seu assassinato" por calúnias dos "seus irmãos no sacerdócio e no episcopado".
– Sim, de facto foi assim, também escutei ele mesmo dizer isso nos [seus] últimos dias – exclama Gaspar. – O seu pecado foi o de defender os pobres, pedir justiça para que não se cometessem prepotências contra as pessoas pobres. Por isso a oligarquia quis matá-lo. Os jornais ultrajavam-no, os deste país, que são os jornais dos ricos e dizem o que os ricos pensam. Diziam que era comunista, que era guerrilheiro, e a oligarquia salvadorenha mandou a Roma três bispos, o de San Miguel, o de San Vicente e o de Santa Ana, para denunciá-lo e para pedir que o transferissem. O Monsenhor sabia disso e ficou muito desgostoso por três irmãos no episcopado terem ido denunciá-lo. Isso foi muito doloroso para ele, porque eles eram alguns dos que ele havia ajudado.
E acrescenta:
– Hoje também há difamadores na Igreja de El Salvador.
– E o senhor conhece pessoas que mudaram de opinião sobre monsenhor Romero, que tenham sido críticas e hostis e que agora pensam diferente ?
– Sim, e vieram ver-me. Disseram-me que lamentavam muito e que estavam arrependidas por terem repetido coisas falsas sobre monsenhor Romero. Pedem perdão a Deus e a ele pelas ofensas que lhe fizeram.
– Como ocorreu com Rutilio Grande antes que ele...
– Quando Romero foi nomeado arcebispo, o padre Rutilio era diretor do seminário San José de la Montaña. Rutílio pediu-lhe para ser transferido para El Paisnal, onde havia nascido. Ali ele doutrinava a gente, ensinava que não se deixassem ultrajar pelos patrões, que pedissem um tratamento justo e salário decente. E isto provocou até a sua morte: a extrema direita mandou assassiná-lo.
– O que significou isso para o seu irmão?
– Quando monsenhor Romero soube que tinham assassinado Rutilio, foi lá. Chegou ao lugar onde o estavam a velar, no parque. Perguntou porque não o velavam na igreja e fez com que o levassem para dentro. Ficou a noite inteira ao lado do cadáver de Rutilio. Ali também começou a sua amizade com os Jesuítas (Rutilio Grande era jesuíta, ndr.), que se haviam afastado dele e o criticavam.
– É verdade que naquele momento, diante do cadáver de Rutilio Grande começa também – como escrevem os seus biógrafos – a mudança de Romero?
– Sim, ali começa uma transformação nele. Ele pediu ao Presidente da República, o doutor Carlos Humberto Romero, que se investigasse o assassinato do padre Rutilio até identificar os culpados. O Presidente disse que não sabia quem eram os responsáveis, mas que mandaria investigar a fundo e dentro de um mês forneceria respostas. Mas não foi assim. Passou o mês e como não havia responsáveis certos, monsenhor Romero rompeu com o governo.
(Facto que teve consequências para o seu irmão mais novo. Gaspar Romero falou sobre isso nesta entrevista ao jornal online El Faro em agosto de 2011: «Eu tinha um cargo muito bom na Antel (empresa de telecomunicações nacional, ndr.), como dirigente. E de repente chegou a ordem. Lembro que aconteceu numa sexta-feira: transferiram-me para a portaria, para trabalhar das sete da noite às sete da manhã. Eu queria perguntar o porquê, o que é que eu tinha feito, até pedi uma audiência, mas nunca me foi concedida. Então obedeci e fui trabalhar na portaria. Quando consegui falar com o meu chefe, ele confirmou: "É por causa do seu irmão.".»
Na mesma entrevista, Gaspar Romero fala dos dias que antecederam o assassinato do seu irmão e das consequências que ele mesmo sofreu. «Eu também recebia muitas ameaças anónimas na minha casa, desde malcriações e grosserias até outras mais finas, em que me diziam que queriam muito bem a meu irmão e que eu intercedesse. Na sexta-feira antes do seu assassinato (monsenhor Romero foi morto numa segunda-feira) chegou-me uma carta anónima que dizia algo assim: se o meu irmão não desistisse das suas homilias, teria as horas contadas, que o sequestrariam e que eu deveria dizer isso a ele. Era bem clara, bem nítida. Então eu fui ter com ele e ele disse-me: "Não faças caso, deita-a fora!".»
Foi a última vez que falou com o seu irmão.
– "Não te preocupes" – disse-me ele – "e se me acontecer alguma coisa, vais ser o primeiro da família a sabê-lo". E foram palavras proféticas, porque no dia 24 de março eu estava a trabalhar quando, às 6 e pouco da tarde, o meu chefe falou comigo e me disse para ir à Policlínica, que tinham ferido o meu irmão. Eu já sabia, na verdade, e saí correndo. Ao chegar, não me queriam deixar entrar, mas eu identifiquei-me. Lá pelas 22 entraram todos os meus parentes, e fiquei lá durante toda a noite.
– O senhor me disse que, se Romero estivesse vivo, diria as mesmas coisas que disse nos anos 1980...
– Eu digo mais: se hoje ele estivesse aqui, eles matá-lo-iam de novo. Porque ele continuaria a defender os pobres de tanta injustiça, de tanta miséria, de tanta corrupção.


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