Como detetar e controlar a raiva?

«A raiva é uma emoção que faz parte das nossas vidas e senti-la quando somos provocados ou agredidos é normal e difícil de controlar. É uma reação de sobrevivência da espécie. Neste caso, se a raiva salvar a vida, será positiva», diz a psicóloga Marilice Rubbo Carvalho, especialista em comportamento cognitivo da Universidade de São Paulo (Brasil).

Em pequenas doses, a raiva pode servir de impulso para ações ou motivação para mudanças, segundo Armando Ribeiro das Neves Neto, psicólogo e coordenador do programa de avaliação do stress do hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

O raiva torna-se um problema quando extrapola o bom-senso e passa a prejudicar a saúde e o convívio social, estando relacionada diretamente com o stress. «Ela é ruim quando chega a causar sintomas mentais e físicos prejudiciais», alerta Marilice Carvalho.

Sete problemas de saúde que raiva e stress podem causar:
1. Problemas cardíacos: Acessos explosivos frequentes produzem enormes quantidades de cortisol e adrenalina no corpo, o que prejudica todo o sistema cardiovascular. A raiva também eleva a pressão sanguínea, o que gera maiores quantidades de glicose no sangue e glóbulos de gordura nos vasos sanguíneos, o que causa danos nas artérias.

2. Problemas gastrointestinais: Por causa da raiva, é comum as pessoas sofrerem de gastrites e outros problemas no estômago. Isso ocorre porque os momentos de extrema exaltação bloqueiam a libertação de substâncias químicas necessárias para uma digestão saudável, e libertam ácidos estomacais que podem irritar as paredes do estômago, reativar úlceras já existentes, ocasionar diarreia ou cólicas.

3. Músculos doridos: Na pessoa nervosa, os músculos contraem-se de tal forma que pode chegar ao ponto de sentir dores como se tivesse feito exercício físico. Para aliviar esta tensão, é recomendável respirar profundamente com o diafragma.

4. Dores de cabeça: A raiva pode provocar uma variedade de reações fisiológicas, como dores de cabeça e enxaquecas, palpitações cardíacas e formigueiro nas mãos e pés. Maxilar cerrado, mudanças hormonais e desidratação também são outros efeitos prejudiciais que podem ser uma resposta do corpo para o stress.

5. Ganhar peso: O cortisol produzido pelo organismo em situação de stress também pode criar depósitos de gordura no abdómen, levando ao aumento do peso. Além disso, os cientistas já relacionaram a raiva reprimida com transtornos alimentares como a bulimia e anorexia, especialmente em adolescentes.

6. Derrames vasculares e cerebrais: A raiva liberta adrenalina, que tem influência direta na coagulação do sangue. Nas pessoas que sofrem de pressão alta ou estão com excesso de peso, há mais risco de serem desencadeados derrames vasculares e/ou cerebrais.

7. Problemas de relacionamento: Quando alguém perde o controlo dos seus sentimentos e deixa a raiva dominar as suas ações e, principalmente, reações, magoa as pessoas ao seu redor com palavras e atitudes.

O que causa a raiva?
A raiva deve-se, na maior parte dos casos, a uma má gestão do stress, quando uma pessoa não presta atenção aos seus sentimentos: «O stress alimenta a ansiedade, que alimenta a vergonha e que se manifesta em explosões de raiva mas também de depressão», diz Mike Fisherspresidente da Associação Britânica de Gestão de Raiva, ao jornal britânico The Independent.

Como é que as pessoas podem gerir a raiva que sentem?
Em primeiro lugar, diz Mike Fishers, é preciso parar e olhar para o cenário como um todo, ou seja, tentar decifrar qual a verdadeira causa da fúria e como as pessoas reagem aos momentos em que se expressa tal raiva.

Depois, há que saber avaliar o momento, de forma a que a raiva não dê origem a mais raiva, o que acontece facilmente numa discussão entre duas pessoas com opiniões diferentes. 

«Em terceiro lugar, ouvir». Significa procurar ajuda. Essa ajuda pode surgir através da comunicação e de conversas com um amigo ou familiar em quem se confia, mas pode também acontecer com um simples diário onde a pessoa expressa tudo o que a atormenta e que pode fazer com que aprenda a lidar com as próprias emoções.

Não menos importante, destaca o especialista, é o hábito de não levar tudo a peito. Se está trânsito, das duas uma: ou procura um caminho alternativo ou aproveita o tempo que vai estar parado para ouvir uma boa música. Aprender a respeitar as opiniões contrárias e procurar fundamentar ao máximo as suas é também uma forma bastante eficaz de não aumentar os níveis de raiva.

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