Se os números do divórcio continuarem a ser lidos com a
mesma demagogia, em breve as manchetes anunciarão mais divórcios do que
casamentos!
Nem sempre é fácil perceber o que dizem os números, é certo.
Quando lemos que em 2013, último ano de que há dados, por cada 100 casamentos,
70 acabaram em divórcio, a conclusão parece óbvia. E mesmo a calhar para mote
de conversas fatalistas sobre como agora as relações já não são o que eram.
Mas o que não se diz é que este indicador compara os
divórcios registados num ano com os casamentos celebrados nesse mesmo ano, o
que resulta na ilusão de um casa-separa mais rápido do que a própria luz.
Contudo, o INE dá-nos conta de que os casamentos que terminam em divórcio
duraram em média 16 anos, ou seja, a maioria dos 22 784 divórcios registados em
2013 refere-se aos 65 770 casamentos
realizados em 1997. E assim sendo a percentagem não é de 70 %, mas de cerca de
36 %. O que não é propriamente a mesma coisa.
Mais ainda, se analisarmos o número absoluto de divórcios,
percebemos que se mantém praticamente inalterado ao longo da última década, com
uma pequena descida de 2012 para 2013, que os entendidos atribuem à crise
económica - e se for verdade, então é provável que quando se conhecerem os
números de 2014 ou 2015 se registem os divórcios que não aconteceram então.
Aliás, com os casamentos a diminuir, se continuarmos a ler
desta forma os números, em breve teremos manchetes ainda mais extraordinárias,
anunciando que há mais divórcios do que casamentos!
Porque o que tem vindo a diminuir são os casamentos,
substituídos por uniões de facto, que pela sua natureza são de
"avaliação" mais difícil, parecendo saber-se pouco sobre a sua
longevidade.
O que se sabe, no entanto, é que metade das pessoas que
casaram em 2013 já viviam juntos,
sobretudo na zona de Lisboa e a sul, numa tendência crescente - menos de
cinco anos antes não chegava a um terço. Não admira que, também por isso, a
idade dos "nubentes" tenha vindo a aumentar: a idade média à data do
primeiro casamento é de 33 anos nos homens (em 1980 era 25), e de 31 nas
mulheres (em 1980 era de 23).
Curioso, no entanto, é verificar que quem casou uma vez,
tende a casar-se de novo, mesmo depois de ter passado por um divórcio. São, na
prática, os verdadeiros crentes na "instituição". Dos que casaram em
2013, cerca de 18% eram reincidentes. A que se soma uma boa notícia: ao
contrário do que acontecia há uma década, hoje as mulheres também voltam a
casar quase tanto como os homens, provavelmente mais livres do estigma que uma
separação acarretava consigo. É mais um ponto a favor do casamento.

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