O Papa Francisco poderá atender brevemente ao pedido especial dos bispos brasileiros de permitir que padres casados retomem o seu ministério sacerdotal, disse o teólogo da libertação Leonardo Boff numa entrevista a Christa Pongratz-Lippitta do jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger, em 25 de dezembro. Este resumo foi publicado pelo National Catholic Reporter. , em 30 de dezembro. Foto: Markus Wächter.
«Os bispos brasileiros, especialmente o amigo íntimo do papa, o cardeal Claudio Hummes, solicitaram expressamente ao papa Francisco que consinta aos padres casados do Brasil retornar ao seu ministério pastoral» – disse Boff. «Ouvi recentemente que o papa quer atender este pedido - como uma fase preliminar experimental, por enquanto limitada ao Brasil.»
Com os seus 140 milhões de católicos, o Brasil precisa de pelo menos 100 mil sacerdotes, mas ele tem apenas 1800, o que é uma «catástrofe», disse Boff. «Não é de admirar que os fiéis estejam indo para as igrejas evangélicas ou pentecostais em massa, pois eles estão preenchendo o vácuo do pessoal. Se os milhares de sacerdotes que se casaram fossem autorizados a praticar de novo o seu ministério, este seria um primeiro passo para melhorar a situação, mas ao mesmo tempo também um impulso para que a igreja se liberte dos grilhões do celibato.»
Questionado se ele, como ex-franciscano, reassumiria o seu ministério sacerdotal se o papa decidir aquiescer ao pedido dos bispos brasileiros, Boff respondeu: «Eu pessoalmente, não preciso de uma decisão assim. Ela não mudaria nada para mim pois continuei a fazer o que sempre fiz: batizo, enterro e quando chego a uma comunidade que não tem padre, eu celebro a missa com os fiéis. Até agora, até onde eu sei, nenhum bispo jamais objetou, muito menos me proibiu de fazer isto. Ao contrário, os bispos muitas vezes me dizem para continuar, uma vez que as pessoas têm direito à Eucaristia.»
O falecido Cardeal Paulo Evaristo Arns, com o qual Boff estudou teologia, sempre foi muito aberto sobre esta questão, disse Boff. Sempre que Arns notava padres casados nos bancos, convidava-os a subir ao altar e concelebrar com ele, dizendo: «Eles ainda são sacerdotes e continuarão sacerdotes!»
No que se refere às reformas internas da Igreja, é possível que o papa tenha mais surpresas na manga, disse Boff. «Ainda recentemente, o cardeal Walter Kasper, que é muito próximo ao Papa, disse que poderíamos esperar algumas grandes surpresas brevemente. Então, quem sabe, talvez possamos esperar mulheres diáconos?»
Francisco procurou a reconciliação com os mais importantes representantes da teologia da libertação, o dominicano P.e Gustavo Gutiérrez, o jesuíta P.e Jon Sobrino e ele próprio, disse Boff. «Francisco é um de nós. Ele fez da teologia da libertação propriedade comum da Igreja e, além disso, estendeu-a». E acrescentou: «Quem fala dos pobres hoje em dia também deve falar do nosso planeta Terra, que está sendo saqueado e profanado. Escutar os gritos dos pobres e de toda a torturada criação. É isto que é principalmente novo em Laudato Si’.»
Segundo Boff, Francisco pediu ao teólogo [a ele, Boff] que lhe enviasse material para ser usado na encíclica ambiental, Laudato Si’, sobre o Cuidado pela Nossa Casa Comum". Francisco ligou e agradeceu a Boff no dia anterior à publicação da encíclica em maio de 2015.
Boff admitiu que Francisco está a sofrer uma feroz oposição dentro de suas próprias fileiras, «particularmente dos EUA». O cardeal americano Raymond Burke, junto com o cardeal alemão Joachim Meisner, escreveu «mais uma vez» ao papa, referiu Boff - que chamou a Burke «Donald Trump da Igreja Católica». Mas ao contrário de Trump, comentou Boff, Burke foi «posto de lado» na Cúria Romana. Burke e Meisner são dois dos quatro cardeais que enviaram a Francisco uma carta, tornada pública em novembro, questionando o ensinamento do papa na sua exortação apostólica Amoris Laetitia. Alguns interpretaram a carta, assim como alguns comentários públicos de Burke, como acusação a Francisco de heresia, embora Burke tenha negado ter feito tal acusação.
«A forma como Burke se comportou é incomum, embora não absolutamente sem precedentes no curso da história da Igreja», disse Boff. «Pode-se criticar o papa e discutir com ele. Eu próprio fiz isso com bastante frequência. Mas que cardeais acusem publicamente o papa de difundir uma teologia errónea, para não dizer heresia, é demais. Isso é uma afronta que um papa não pode tolerar.»

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