Qual é o Deus de Trump? É um Deus tão “americano” a ponto de
ser indecifrável para a Europa? É um Deus – ou, melhor, um Tele-Deus –
construído sobre o “prosperity Gospel”, ou aquele que ensina que a “financial
blessing” é prova de graça e que quem doa para a Igreja se torna mais rico e,
portanto, assimétrico em relação à tradição das grandes Igrejas? Ou é o Deus do
Evangelho, presente na carne daquele Lázaro – citado nas saudações do papa a
Trump –, cuja miséria julgará quem foi surdo à privação do pobre? O discurso
inaugural do presidente, em grande parte, respondeu a essas perguntas.
Alberto Melloni, em La Repubblica, 21-01-2017. Tradução: Moisés Sbardelotto, em Unisinos
Foto: Facebook/Paula White
Desde sempre, o momento da assunção do ofício de presidente
dos Estados Unidos é repleto de sinais religiosos cristãos – da Bíblia, sobre a
qual se consuma o juramento, até à bênção proferida por uma autoridade
religiosa. Isso obriga o presidente a um definitivo posicionamento sobre o
problema espiritual.
No entanto, mesmo não falando de Deus, Trump permaneceu no
rastro de um cerimonial que sempre suplicou “God bless America”, mas que, desta
vez, mais do que pedir, parecia ordenar ao Pai Eterno que se adequasse à nova
ideologia da “America first” (“América primeiro”).
O Deus de Trump aparecia já em contraluz na oração de Paula
White, primeira mulher a pronunciar a bênção ritual. Líder de uma megaigreja
pentecostal, há quinze anos diretora espiritual de Trump, a pastora White foi
protagonista em 2015 da “unção” de Trump como candidato, feita junto com
Kenneth e Gloria Copeland, e David Jeremiah e Jan Crouch: gesto que agora pode fazer-nos
sorrir, nomes que dizem pouco entre nós. Mas que representam bem a asa
“evangelical” em marcha, que está a mudando a fisionomia daquele que
antigamente se chamava protestantismo.
A pastora, na sociedade pluralista por excelência, explicou
nos mínimos detalhes a Deus o que Ele deve fazer pelo presidente, pelo vice,
“pelas suas famílias” e pelo país. Definida ora como herética, ora como
charlatã antitrinitária pelo protestantismo “mainstream” e por importantes
setores do catolicismo, Paula White citou o Livro dos Provérbios e a retórica
dos Estados Unidos como dom de Deus (aos estadunidenses): no qual se inseriu o
coração “religioso” do discurso dessa sexta-feira e a manifestação do Deus de
Trump.
O Deus de Trump, depois daquele quente e predicatório de
Obama, foi apresentado como a garantia de um privilégio estadunidense, de
direito de comandar, obtido distorcendo o Salmo 133. “Como é bom, como é suave
que os irmãos vivam juntos”, diz aquele breve poema que consola uma pequena
minoria de israelitas piedosos e que foi usado também pelos cristãos dentro de
uma visão universalista da fraternidade humana. Trump, ao contrário, corrigiu o
texto do salmo e explicou que “a Bíblia” ensina como “é bom e suave” (e até aqui
vai o Salmo) “quando o povo de Deus viva junto em unidade”. Entre a convivência
fraterna e a autoproclamação de si mesmo como povo de Deus, passa uma forçação
banal. Trump reivindicou aos Estados Unidos a tarefa de “povo escolhido”,
portador de uma espécie de teologia da singularidade global.
O excepcionalismo estadunidense, antigamente usado para
justificar o dever de defender as liberdades no mundo, foi usado por Trump para
se defender do mundo da liberdade. O povo estadunidense entendido como “o” povo
de Deus não é uma entidade política, mas sim uma comunidade mística de destino.
E – disse o presidente – tem dois protetores: o primeiro é a força, do exército
e da polícia; o outro é justamente Deus, dito por segundo, por ser mais
funcional a uma unidade que não passa pelas instituições, mas pelos símbolos e
pelo povo.
Ao lado dessa distorção, Trump introduziu um Deus do Sangue,
que, quando é invocado, é sempre ouvido. O presidente exaltou a mística do
Sangue dos patriotas – sempre vermelho, na prosa trumpiana –, e, a partir daí,
derivou uma distinção dentro da própria criação. Em uma das passagens finais,
de fato, ele disse que a unidade do novo “povo eleito” se deve ao fato de que
as crianças de Detroit ou do Nebraska tem sobre si o mesmo céu noturno, sonham
com o coração os mesmos sonhos e receberam o “sopro vital” do mesmo “criador
onipotente”: o que é conceitualmente inadmissível pela antropologia bíblica.
Porque esse céu noturno, esses sonhos e esse sopro não são diferentes para as
crianças do mundo em relação às crianças estadunidenses.
Mas é evidente que, no calor eleitoralista, já há uma
“política” religiosa. E, nessas distorções teológicas, há uma primeira e
duríssima resposta a Francisco que, nessa sexta-feira, referindo-se à “família
humana”, aos “ricos valores espirituais e éticos” da história estadunidense, à
dignidade do homem e do pobre Lázaro, quiseram marcar uma distância também
teológica: “prosperity Gospel” contra “catolicismo do evangelho”. Estamos nos
primeiros minutos de um duelo que será duro.

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