«Há países em que a Sexta-feira Santa e a Quinta-feira Santa não são feriados, e os católicos participam nas cerimónias à noite, depois do trabalho. Fazem sacrifício, mas vão à noite. E vão e participam. Quando é dada a possibilidade de gozar feriado, esse feriado acaba por não ter nada que ver com a vivência litúrgica ou até a prejudicar. As pessoas simplesmente não aceitam prescindir da oportunidade de um tempo de descanso, de férias, de divertimento, de um tempo lúdico e vão para… vão para férias», analisa contundente o autor do blogue zelodacasadosenhor.wordpress.com, a 19 de fevereiro passado. Eis o texto:
Há muitos padres que passam a Páscoa entristecidos. O que acontece é isto: na vida cristã o padre é um formador da vida cristã, é essencialmente aquele que preside à vida cristã, aquele que guia a vida cristã da sua comunidade. O padre, na essência da palavra, é aquele que se entrega à comunidade e vive com ela Cristo; não vive apenas o cristianismo, vive o próprio Cristo: vive o Evangelho, vive a Palavra, vive a Comunhão, a comunhão eucarística, mas também aquela da comunidade que se reúne e que vive em união, em reunião, em comunhão. Tudo isto gira em torno da Páscoa. É como se a Páscoa valesse por todo o resto da religiosidade. A importância da Páscoa é tremenda. Basta ter presente que sem a Páscoa, o resto não faz sentido.
Quando chegam os dias de Páscoa, nós assistimos a famílias a abandonarem as suas residências habituais e a irem embora, deixam as comunidades em que estão estabelecidas, em que vivem inseridas ao longo do ano, e vão para as suas terras, para as casas que têm nas terras de família ou para as segundas residências adquiridas e algumas até têm a vivência litúrgica da Páscoa nas suas terras, outras vão simplesmente para férias, para lugares de praia ou de neve, etc., onde…, sou muito céptico a aceitar que na maioria das famílias destes casos vá ter uma vivência litúrgica intensa, outras vão para lugares onde há uma vivência pascal, ou de Semana Santa, de procissões do Senhor dos Passos, da Senhora das Dores, vão para Óbidos, Braga, Sevilha, Roma, mas são cada vez menos estes casos porque as pessoas vão mesmo e exclusivamente de férias. Fazem férias de Cristo, na altura em que Cristo é mais Cristo. E os padres passam o ano todo a pregar, a pregar e na altura em que podiam ver algum fruto dessa pregação, sume-se tudo. Esta situação pode contribuir muito para um grande desânimo do pároco.
Esta situação no nosso país tornou-se mais gravosa após o 25 de Abril pois até esta data a Sexta-feira Santa não era feriado, tendo-se os revolucionários apressado logo a instituir este feriado. Há países em que a Sexta-feira Santa, a Quinta-feira Santa, não são feriados, e os católicos participam nas cerimónias à noite, depois do trabalho. Fazem sacrifício, mas vão à noite. E vão e participam. Quando é dada a possibilidade de gozar feriado, esse feriado acaba por não ter nada que ver com a vivência litúrgica ou até a prejudicar. As pessoas simplesmente não aceitam prescindir da oportunidade de um tempo de descanso, de férias, de divertimento, de um tempo lúdico e vão para… vão para férias. Em absoluto. Esta ida para férias é desastrosa e corta pela base a vivência cristã. É natural que os padres fiquem tristes. Mas atenção porque há também um número razoável de padres com obrigações em comunidades paroquiais que vai para férias nesta altura, abandonando o seu rebanho.
Pelo menos as ovelhas que não debandaram elas também para gozo de férias.
Conheci alguns casos de padres que abandonaram alguma vez, ou sistematicamente, o rebanho em momentos litúrgicos culminantes, mas conheci e conheço muitos de padres que se sentem abandonados na Páscoa. E não só, mas também noutras ocasiões em que desejariam fazer comunhão com os seus paroquianos que debandaram aproveitando o feriado que supostamente existe para o facilitar a vivência da festa litúrgica.
Não se trata aqui da questão da tristeza do padre, mas da orfandade do fiel. O padre não vê o fruto que gostaria de observar. Mas o fiel que abandona, que parte, qual filho pródigo, renuncia ao gozo dos maiores prazeres que se resumem na felicidade espiritual. Também não se trata de impedir ou apontar o dedo quem vai de férias, mas de sensibilizar para a avaliação dos momentos escolhidos para delas desfrutar, para cada fiel reflectir acerca do conjunto de obrigações comunitárias que tem, desde logo como baptizado. A Igreja é a comunidade dos fiéis e não, como hoje sabemos bem, o feudo dos padres. A Igreja somos todos os baptizados. Somos nós que a edificamos e esse edifício será tão sólido e belo quando nós fizermos por isso, porque é uma construção orgânica, não mineral, viva, que precisa ser alimentada. Se não a alimentarmos com estes gestos, uns de menor importância outro fundamentais, todo o edifício desmorona, implode, fica arrasado.
Pense cada um no que pode fazer pela Igreja pela qual é, afinal, tão responsável como qualquer padre ou bispo, não obstante o grau de comprometimento ou dedicação de cada um.
Queres pertencer a uma Igreja? Assume-te e faz a tua parte.
Ao iniciar a Quaresma, reflecte que ela não é mais que uma oportunidade que te é sugerida para viver em grande a Páscoa em toda a sua magnificência. Cristo deu ao Mistério Pascal a cruz. Com que podes tu contribuir? Poderás ao menos, no final da Quaresma, viver com os irmãos a liturgia pascal?

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