As nossas grandes tentações - comentário ao Evangelho do 1.º Domingo da Quaresma


O episódio das «tentações de Jesus» adverte-nos de que podemos arruinar a nossa vida se nos desviarmos do caminho que segue Jesus.

A primeira tentação - «Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães» - é de importância decisiva, pois pode perverter e corromper a nossa vida desde a raiz. Aparentemente, a voz diabólica oferece a Jesus algo inocente e bom: colocar Deus ao serviço da sua fome.

No entanto, Jesus reage de forma rápida e surpreendente: «Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Ou seja, Jesus decide que não colocará Deus ao serviço do seu próprio interesse, esquecendo o projeto do Pai. 

A nossa grande tentação é hoje converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte da nossa vida à satisfação dos nossos desejos; viver obcecados por um bem-estar sempre maior ou fazer do consumismo indiscriminado e sem limites o ideal quase único das nossas vidas.

O exemplo de Jesus pode-nos ajudar a tomar mais consciência de que o bem-estar não vive só de coisas materiais: necessitamos de cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem, escutar a nossa consciência com responsabilidade, abrir-nos ao Mistério último da vida com esperança.

A segunda tentação - «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: 'Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'"» - é querer, em nome de Deus, fazer o contrário de Deus, que é Amor. Esta é a raiz de todas as guerras e inimizades em nome da religião. 

Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: "Não tentarás o Senhor teu Deus".» E tentar Deus é perguntar-Lhe, julgando-O: «Foste tu que nos causaste o mal?»

A terceira tentação - «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares» - é a da vaidade, de fazer ostentação de prestígio, de colocar-se no centro do mundo.
A esta tentação respondeu Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: 'Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto.»

“Na tentação não há diálogo, reza-se: "Ajuda-me Senhor, sou fraco. Não me quero esconder de Ti." 
Isso é coragem, isso é vencer. Quando começamos a dialogar com a tentação acabamos vencidos, derrotados.” (Papa Francisco, Missa em Santa Marta, 10.02.2017)

José Antonio Pagola, em http://iglesiadesopelana3m.blogspot.pt, 5 março 2017, e Fernando Felix

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