«Da invisibilidade actual, na Igreja, à exaltação dada, por Jesus, às mulheres do seu tempo», conferência de Irmã Julieta Dias, RCSM (Religiosas do Sagrado Coração de Maria)
Hoje, na Igreja, basta olhar para poder constatar: mulheres? Sim: muitas; visibilidade? Nula! Mesmo na era da imagem – que é a nossa – o que dá visibilidade é a palavra. Quem não for detentor da palavra não é visto, torna-se invisível.
A mulher não é detentora credenciada da missão da Igreja. É
uma serviçal a quem compete, simplesmente, executar as tarefas que lhe forem
pedidas, segundo os requisitos estipulados. Não detém o poder de falar, mas o
de repetir o que ouve. Não lhe é reconhecido o poder de edificar e dirigir a
comunidade cristã e, muito menos, o de representar, sacramentalmente, Cristo.
Tudo isto tem as suas vigorosas raízes no androcentrismo e é
fruto da ignorância que não desapareceu, apesar do abundante cultivo – nos
campos das ciências, das humanidades, das tecnologias e das artes – ter
produzido frutos de excelente qualidade que, hoje, ninguém se atreve a
contestar e que fez abalar, com bastante violência, o androcentrismo, pelo menos
em algumas sociedades. Culpabilizemos, então, a história que transmitiu às
sucessivas gerações a existência de uma hierarquia natural entre o homem e a
mulher, na qual, o varão, o ser humano masculino, ocupa uma posição superior,
tanto no pano social como no plano simbólico, devido à sua condição de “ser
humano perfeito”, enquanto a mulher não passa de um “ser humano deficiente”.
No Ocidente, porém, este legado começou, progressivamente, a
ser corroído a ponto de, hoje, nos orgulharmos de ter ultrapassado o tal
androcentrismo, pelo menos juridicamente. Esta evolução em ordem à igualdade
dos géneros não se deve à superioridade moral da sociedade ocidental em relação
às outras sociedades, mas, fundamentalmente, aos avanços da ciência, sobretudo
da medicina, e ao trabalho assalariado das mulheres nas sociedades
pós-industriais.
A emancipação da mulher, o reconhecimento de iguais
direitos, o acesso ao saber, não dão, automaticamente, a igualdade de facto, no
concreto da vida. Todas sentimos isso sem precisar de apontar exemplos.
A Igreja católica estruturou-se na chamada sociedade
ocidental. Desde muito cedo – podemos ver já nas Cartas de Paulo, primeiros
escritos cristãos conhecidos – a reflexão cristã foi condicionada culturalmente
pelo androcentrismo vigente (1Cor 11, 2-15), que contradiz o “credo baptismal”
recebido e, fielmente, transmitido pelo mesmo Paulo: Vós todos sois filhos de
Deus pela fé em Cristo Jesus, pois todos vós que fostes baptizados em Cristo,
vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não
há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gal 3, 26-28).
Na mesma Carta, explicita a nossa igualdade em Cristo (sois um só, isto é,
iguais) dizendo: Foi para a liberdade que Cristo vos libertou. Permanecei
firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão (…) fostes
chamados à liberdade para vos colocardes ao serviço uns dos outros (Gal 5,
1-15).
A exegese bíblica, cada vez mais e de forma cada vez mais
consistente, tem vindo a confirmar que as mulheres desempenharam – não só no
discipulado de Jesus, mas também no Cristianismo primitivo – um papel bastante
mais importante do que o Novo Testamento dá a entender. Na verdade, deve ter
sido muito forte, muito decisiva, a acção das mulheres para não serem
esquecidas, quando era costume não contar mulheres e crianças (Mt 14, 21; 15,
38). Elas depressa compreenderam que a proposta de felicidade trazida pelo
Nazareno não excluía ninguém, seguiram-no e foram acolhidas. Diria mesmo, foram
exaltadas, amadas com predilecção.
Seguir Jesus Cristo é pôr a sua vida – mulheres e homens –
ao serviço da alegria plena para todos (Jo 15, 11). O 4º Evangelho, na sua
estrutura diferente da dos Sinópticos, pelo lugar que dá às mulheres, mostra
que é testemunho de uma comunidade edificada (cf. Ef 4,12) pela acção delas. A
estrutura da narrativa mostra o papel preponderante das mulheres nessa
comunidade, como o de Marcos, por exemplo, mostra o de Pedro. O lugar ímpar que
lhes concede reflecte a história, a teologia e os valores da comunidade do
discípulo amado (1):
A mãe de Jesus – a Mulher – no início (Jo 2,1-12) e no fim
(Jo 19, 25-27) do Seu ministério público.
Preponderância da mulher na evangelização (Jo 4).
Preponderância da mulher no reconhecimento de Jesus como o
Cristo de Deus (Jo 11, 1-44 e 12,1-8).
Preponderância da mulher no anúncio da Ressurreição,
primeiro momento do que, hoje, podemos chamar Igreja (Jo 20, 1-18).
Vejamos em detalhe:
1. É a mulher que provoca o início do ministério público de
Jesus (Jo 2,1-12), embora Ele tivesse perfeita consciência da missão que Lhe
fora confiada (Jo 2,4). A mãe de Jesus estava também nas bodas de Caná e, ao
faltar o vinho durante as festas, interpela-o sobre o facto. Dá-se um diálogo
inusitado. Tratando-a por “mulher”, responde-lhe com dureza e/ou perplexidade:
Τί εμοι και σοί (literalmente: “que há entre tu e eu?”) que pode ser traduzido
por: “que há de comum entre nós?” ou “o que é que tu sabes de mim?”. Nos
Sinópticos, esta expressão é posta na boca dos “espíritos” dirigindo-se a Jesus
que os quer expulsar (Mc 1, 24; 5, 7; Mt 8, 29; Lc 4, 34; 8, 28).
A continuação da resposta – pois a minha hora ainda não
chegou – leva-me a pensar que há mais perplexidade que dureza: o que há entre
nós para que tu saibas antes de começar?! Como é que conheces já o meu
segredo?!
A reacção de sua mãe – dizendo aos serventes, fazei tudo o
que ele vos disser – e a acção de Jesus – ordenando: Enchei as talhas de
água... Tirai agora um pouco de água e levai-a ao mestre sala – levam-me a
pensar que a mulher tinha pressentido o “segredo” de Jesus e precipitou a Sua
hora que ele julgava não ter chegado ainda.
Esta mulher (2) que apressara a hora de Jesus, no início, é
a mesma mulher que, estando-se a esgotar a sua hora, recebe o mandato de
acolher a Igreja, a nova família de Jesus (Jo 19, 25-27) que não assenta na
atracção recíproca nem nos laços de sangue, mas na escuta da Palavra de Deus
para a pôr em prática, isto é, a Igreja acolhida e edificada pelo amor,
personificada no discípulo amado ou discípula amada. No caso concreto desta
comunidade, discípula amada.
O texto é muito explícito: Perto da cruz de Jesus,
permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria
Madalena (não há nenhum homem neste grupo e o costume era não contar mulheres e
crianças!). Jesus, então, vendo a sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem
amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo:
“Eis a tua mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. Os
“masculinos” na narrativa devem-se, tão só, ao uso da linguagem corrente, sem
esquecer que, quem fala, é efectivamente um homem, o filho que essa mulher
estava preste a perder, mas que tinha de o reencontrar naquela que Jesus amava.
Pela posição que Maria Madalena toma na lista das presentes (último lugar e a
mãe o primeiro, enquadrando todo o grupo), leva-me a ver nela o discípulo
amado.
2. É também muito claro, neste evangelho, que a grande
mensageira de Jesus, a grande evangelizadora, é uma mulher samaritana (Jo 4).
O final do capítulo 2 fala dos judeus que O rejeitam
completamente (2,13-22). O capítulo 3 diz que um homem – Nicodemos – embora se
sentisse atraído pela mensagem de Jesus, tinha muita dificuldade em entendê-la
e vinha, na calada da noite, pedir esclarecimentos porque à luz do dia tinha
medo. Foi um desentendimento completo: Jesus falava em “alhos” e Nicodemos
entendia “bugalhos”. A noite terminou sem qualquer indício da reacção deste
fariseu ilustre.
No capítulo seguinte, dá-se um encontro ocasional, junto ao
poço de Jacob: Jesus e uma samaritana. De início, parece que vai acontecer o
mesmo: não haverá entendimento porque as mesmas palavras têm sentidos
diferentes para cada um dos interlocutores. No desenrolar da conversa, porém, a
mulher percebe que aquele homem é diferente dos outros, deixa o tom irónico e
pergunta o que verdadeiramente lhe interessa. As respostas que obtém abrem-lhe
o espírito e não tem dúvidas: está perante aquele que há-de vir. Ouviu o
suficiente para compreender que a vida seria muito mais vida se toda a gente
conhecesse a mensagem daquele homem. Não perde tempo: deixa o cântaro e vai à
cidade anunciar, chama todo o povo e congrega-o à volta de Jesus. Por causa
dela – diz o texto – muitos samaritanos acreditaram (Jo 4,1-42).
3. Em Lucas, a “transgressora” dos costumes é Maria de
Betânia e Marta escandaliza-se (Lc 10, 38ss). Aqui (Jo 11, 1-44), quem
transgride é Marta. Ela ultrapassa, se assim se pode dizer, a irmã, não
obedecendo aos costumes do luto (3). Sai de casa para ir ao encontro de Jesus,
mal tem conhecimento de que estava a chegar.
Abandona o lugar da morte e vai ao encontro da vida. Neste
momento, Maria verga-se, refugia-se na conversa de condolências, embrulha-se no
luto, enquanto Marta reanima a esperança dos vivos.
Estiveram juntas, apenas, no acto de avisar Jesus de que o
seu amigo Lázaro estava doente. O texto diz, exactamente: As duas irmãs
mandaram dizer a Jesus... A partir daí, o comportamento não é o mesmo: cada uma
toma atitudes diferentes.
De facto, Jesus viera, mas demasiado tarde. Já não havia
nada a fazer. Sabiam que “ressuscitar” não era problema para o Amigo. Fizera-o
várias vezes, mas imediatamente a seguir à morte. Neste momento – quatro dias
depois – já não havia hipótese. Segundo a crença dos judeus, a alma do defunto
pairava à volta do corpo até ao quarto dia. Depois desaparecia para sempre. A
morte de Lázaro era, pois, irremediável.
Ao abandonar o lugar do luto (a casa ou o sepulcro), Marta
viola, ao mesmo tempo, duas normas: a da hospitalidade (para com os judeus que
estavam junto delas) e o rito fúnebre.
Neste episódio, é Marta que tem o dom da antecipação. Apesar
da demora de Jesus parecer uma traição à sua amizade, falta de interesse por
elas, ao saber da proximidade do amigo, não consegue ficar mais tempo junto dos
que permanecem na morte. Levanta-se e sai ao seu encontro antes que ele pise os
lugares do luto.
As primeiras palavras, como não podia deixar de ser, são de
censura, de acusação, ainda que velada: Se estivesses aqui, meu irmão não teria
morrido. Não lhe pergunta a razão da demora, bem sabe que foi porque não quis.
E continua: mas mesmo agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele te
concederá.... Não é um pedido, é uma oração inacabada, uma oração impossível de
ser formulada. Manifesta, no entanto, que acredita que Jesus está em Deus e
Deus em Jesus (cf Jo 10, 38: ficai sabendo que o Pai está em mim e eu no Pai).
Teu irmão ressuscitará – diz-lhe Jesus.
Olha a novidade – responde-lhe Marta. Sei isso perfeitamente,
desde a minha juventude. Aliás, estou farta de ouvir repetir essa frase a todos
os que vêm fazer-nos companhia. Eu sei que ele ressuscitará no último dia.
Ao dizer eu sei, ela mostra que conhece, sem hesitações, a
tradição judaica sobre a ressurreição dos mortos, mas não era esse tipo de
consolação que esperava dele, pois para ela, neste contexto, não passava de uma
banalidade. Da boca dos outros, aceitava; dele esperava mais, muito mais.
Jesus acrescenta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em
mim, ainda que morra viverá. E quem vive e crê em mim, jamais morrerá.
Acreditas nisto?
Os olhos do coração de Marta abrem-se e descobre que o
último dia está na sua frente: Jesus. A vida e Ele são a mesma verdade. O
milagre aconteceu! Depende da fé de cada um abrir-se a ele. Basta passar da
aceitação doutrinal impessoal à convicção profunda, emocionante, à adesão
incondicional do crente.
Marta já não pensa em Lázaro. Vê o Deus humanado à sua
frente e não hesita: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus,
aquele que devia vir ao mundo. O eu sei da tradição já ficou para trás. Agora,
é Eu creio e esta fé move todo o seu ser para a novidade que vê: Tu és o eleito
(o Cristo), o Filho, o Deus incarnado. Este é o âmago, o núcleo central da fé,
da minha fé. Não preciso de mais.
De facto, parece não precisar porque ao confessar a sua fé,
vai imediatamente anunciá-lo. Tem de ser dito a toda a gente. A partir de
agora, para Marta, Maria é todo o povo.
Diz-lhe baixinho: o Senhor está aqui e chama-te. Ele não a
chamou. Marta é que sente a urgência de tirar Maria do ambiente da morte e sabe
que somente uma convocação pessoal a pode demover, a pode levar à vida. Quer
que a sua irmã veja o que ela vira: a ressurreição e a vida, a eternidade do
último dia e o hoje da salvação. Maria levanta-se e vai. Marta, movida pela fé,
fez o que tinha a fazer: convocar. O resto pertencia ao eleito, ao Filho de
Deus, ao Deus humanado.
Marta é a única a confessar a fé em Jesus numa tríplice
dimensão. Nos sinópticos é Pedro, embora nunca use a dimensão tríplice
pós-pascal (Mt 16, 13-20 e par). Por antecipação, ela confessa a fé da Igreja,
ela proclama o Kerigma Pascal. A sua fé move mesmo montanhas (cf Lc 17, 6): a
montanha do tempo, a montanha da tradição, a montanha a morte.
No capítulo seguinte (Jo 12, 1-11), é Maria de Betânia que
actua. Testemunha, para mim, mais uma vez, a presença muito forte das mulheres
na comunidade do Discípulo amado. Quem escreve o 4º Evangelho mostra-nos uma
comunidade edificada (cf. Ef 4,12) pelas mulheres (Jo 2,1-11; 4; 11,27;
12,1-11; 20,11-18) e este texto, nomeadamente, é a confirmação disso mesmo.
Estamos no princípio do fim e, como no princípio do começo
(Jo 2,1-11: bodas em Caná), é uma mulher que intervém, neste caso, com um gesto
profético:
Enquanto os outros põem em dúvida a autenticidade de Jesus,
ela confessa publicamente o seu amor e entrega incondicionais (serviço),
derramando o perfume nos Seus pés e enxugando-os com os seus cabelos.
Enquanto os outros a criticam, Jesus interpreta o seu gesto:
Deixai-a, ela pressente que não haverá tempo nem lugar para os unguentos
habituais na minha sepultura; ela anuncia a minha ressurreição.
João Paulo II, na encíclica sobre a Eucaristia (4), ao
evocar «a simplicidade e simultaneamente a dignidade com que Jesus, na noite da
Última Ceia, instituiu este grande sacramento», lembra «um episódio que, de
certo modo, lhe serve de prelúdio: é a unção de Betânia. Uma mulher, (...)
derrama sobre a cabeça de Jesus um vaso de perfume precioso, suscitando nos
discípulos (...) uma reacção de protesto contra tal gesto (...). Mas Jesus fez
uma avaliação muito diferente: (...) Ele pensa no momento já próximo da sua
morte e sepultura, considerando a unção que Lhe foi feita como uma antecipação
daquelas honras de que continuará a ser digno o seu corpo mesmo depois da
morte, porque indissoluvelmente ligado ao mistério da sua pessoa» (n. 49).
Para além deste aspecto fundamental do texto, é importante
referir outros circunstanciais que ajudam à compreensão global:
É a 3ª Páscoa mencionada pelo 4º Evangelho, durante a vida
pública de Jesus. Nas duas primeiras, apresenta a Páscoa como a festa dos
Judeus (2,13; 6,4). Nesta última, apenas diz a Páscoa (12,1). Não se trata de
mais uma festa dos Judeus, mas da Sua Páscoa, da Sua passagem. Chegou a Sua
Hora (12,23; 13, 31-32; 17,1.5) e Maria de Betânia pressentiu isso.
A crítica dos discípulos (na pessoa de Judas) ao gasto
material de Maria, como manifestação da sua entrega, da sua fé no Mestre,
revela que nada tinham compreendido da abundância de vida que Jesus viera
anunciar (cf. Jo 10,10) nem sabiam ler os sinais da sua própria cultura. Dizer
que a casa inteira ficou cheia do perfume (v.3), significava, na literatura
hebraica, que estavam em contacto com uma vida verdadeira, plena. Dizer que o
perfume podia ter sido vendido para se dar o dinheiro aos pobres era o
argumento de quem via nos pobres, unicamente, o pretexto para esconder a sua
cobiça porque, quando de pobres se tratava efectivamente, 200 denários –
quantia necessária – era demasiado e não quiseram gastá-la (Mc 6, 37);
argumento para quem os únicos valores da vida são apenas os materiais (cf. Mt
6,19-21.24) e não entende nada da vida dada por amor.
4. Finalmente, é uma mulher que, em primeiro lugar, recebe o
mandato de anunciar a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20, 1-18): Vi o Senhor! A
morte não teve poder sobre Ele e ela percebeu – ao ser chamada pelo próprio
nome (cf. Jo 10, 3) – que a morte já ficou para trás, que à sua frente estava a
Vida e à vida se converteu, à sua frente estava o Amor e ao amor se converteu.
Em jeito de conclusão diria o seguinte: segundo o 4º
Evangelho, as mulheres assumem a liderança do início ao termo do ministério
público do Nazareno. Testemunha que elas foram das primeiras a aceitar, sem
reservas, a interpretação alternativa da Lei e do Templo trazida por Jesus.
Elas foram constituídas, por Jesus, como sacerdotes (oferecem a sua vida a
Deus, aos outros), como profetas (são agentes de evangelização) e entenderam
que não podem deixar-se prender pelos critérios deste mundo porque estão a
caminho de outro Reino que tentam edificar, aqui e agora.
Os tempos mudaram. A situação da Igreja mudou: de Igreja
perseguida passou a Religião oficial do Império. Nesta passagem, também mudou o
lugar da mulher na Igreja. Não foi sempre assim, como está hoje.
A cultura influenciou de tal modo a compreensão da mensagem
evangélica que, na segunda geração, as mulheres já eram relegadas para o “seu”
lugar de subalternas. É pena que, hoje, a Igreja não se apoie na cultura actual
para se desfazer dos acidentais, acumulados ao longo dos tempos, e que escondem
a verdadeira originalidade cristã: perante Deus, não há judeu nem grego, não há
escravo nem livre, não há homem nem mulher.
O primeiro livro que li, de Carlos Mesters, Por detrás das
palavras, é uma parábola interessantíssima sobre a Bíblia. Comparava-a a um
grandioso monumento que a poluição, a erosão, as tempestades e a maldade de
muitos, destruíram em parte e desfiguraram. É preciso o trabalho paciente, lúcido
e instruído para fazer a reconstrução e restituir-lhe a beleza original. Diria
o mesmo em relação às mulheres na Igreja: não precisamos de fazer ouro, mas
mostrar o brilho que lhe é próprio, a exaltação dada por Jesus às mulheres do
seu tempo.
NOTAS
(1) R.E.Brown, A Comunidade do Discípulo Amado, EP, São
Paulo, 1984, p. 193.
(2) Não a “sua” mãe. Jesus, segundo o 4º Evangelho, nunca a
trata por mãe, mas sempre por mulher, isto é, não figura enquanto sua mãe
biológica, mas como quem aderiu à sua mensagem.
(3) Durante um certo tempo, só podiam sair de casa para ir
ao sepulcro.
(4) Ecclesia de Eucharistia, Quinta-feira Santa de 2003.

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