«Jesus, Mulheres e Igreja», conferência de Irmã Julieta Dias, RCSM (Religiosas do Sagrado Coração de Maria)
O Papa São João XXIII escreve a Pacem in Terris na segunda metade do
Século XX. Estamos a dois mil anos de distância de Jesus e numa outra cultura. A
sociedade judaica, no tempo de Jesus, embora bastante plural, era marcadamente
patriarcal. Ser mulher, nesse contexto, significava viver num estado de
inferioridade permanente, em total dependência de um homem: pai, marido ou filho.
A narrativa da Criação que estava mais presente na
mentalidade das pessoas era a do Gn 2, em que a mulher é criada a partir do
homem e, apenas, para proporcionar a este uma ajuda adequada. Portanto, a
mulher era “propriedade” do homem e a sua função estava bem definida: ter
filhos e servir fielmente o seu marido.
Texto da intervenção da Irmã Julieta na conferência do Nós Somos Igreja, Lisboa, 14 de abril de 2012
Faço um parêntese para contar uma
outra narrativa da
Criação,
que não vem na Bíblia, mas era uma história judaica, contada por
Frédéric Lenoir, director da revista Le Monde des Religions, ao ser
entrevistado, e que o Frei Bento nos deu a conhecer na sua intervenção a 25 de
Fevereiro deste ano: No Paraíso, Deus criou, em primeiro lugar, a mulher e não
o Adão. Eva aborrece-se. Pede, então, a Deus companhia. Deus criou os animais.
Eva continua insatisfeita e pede a Deus um companheiro que lhe seja semelhante,
com quem pudesse ser mais cúmplice. Deus criou Adão, mas pôs uma só condição a
Eva, que ela nunca revelasse ao homem que tinha sido criada antes dele, para
não irritar a sua susceptibilidade. E Deus concluiu: «que isto fique um segredo
entre nós… entre mulheres!».
Pelos vistos, no povo judaico não havia um pensamento único,
felizmente! A própria Bíblia é testemunha disso mesmo, pois mantem duas
narrativas diferentes da Criação. De facto, na primeira, o ser humano é criado à
imagem de Deus: «homem e mulher o criou».
Um outro controlo pesava sobre elas: as regras de pureza. A
mulher era, ritualmente, impura durante o período menstrual e no parto –
perlongando-se por 40 dias no nascimento de um menino e por 80 dias se fosse
menina. Nestas situações era considerada impura e tornava impuro tudo o que
tocasse: pessoas ou objectos.
Além disso, como a narrativa bíblica apresenta a mulher a
dar a comer o fruto proibido – que lhes mereceu a expulsão do paraíso – era
vista como um ser tentador, mas também vulnerável, frívolo, sensual, que
precisava de protecção e de controlo. Não podia ter vida própria. O seu espaço
específico era o interior da sua casa e nem precisava de ir ao Templo ou à
sinagoga.
Há indícios, por outro lado, ainda que escassos, de que na
Galileia, por exemplo, havia aldeias onde as mulheres gozavam de uma maior
liberdade social.
Os textos evangélicos nada nos dizem se Jesus se interrogava
ou não sobre estas questões. O que nos apresentam é um grupo de mulheres, de
várias proveniências, a acompanhar Jesus desde o início da sua pregação, sem
lhes ser perguntado se tinham licença do pai, do marido ou do filho. Estas
mulheres deixaram o recato do seu lar para andarem de terra em terra, seguindo
e aprendendo os ensinamentos do Nazareno. Não há notícia de nenhum outro
profeta de Israel que se deixasse acompanhar por mulheres.
Afastar-se de casa, andar sozinha na rua, tomar parte em
refeições “sociais” ou em actividades reservadas aos homens, eram consideradas
condutas desviantes, próprias de mulheres que descuravam a sua reputação, a sua
honra. Jesus sabia isso quando as aceitou em sua companhia.
Como diz José Antonio Pagola, «as mulheres judias, sem
verdadeira autonomia, servas do seu próprio esposo, reclusas no interior da
casa, suspeitas de impureza ritual, discriminadas religiosa e juridicamente,
formavam um sector profundamente marginalizado na sociedade judaica» E
pergunta: «seria realmente isto o que Deus queria? Que poderiam esperar as
mulheres com a chegada do reino de Deus?»[1].
Quem eram as mulheres que saíram de suas casas para seguir
Jesus? Concretamente, apenas sabemos de uma que foi curada por Jesus: Maria de
Madgala (Lc 8, 2). Das outras nada sabemos da sua realidade pessoal, familiar
ou social. Percebemos, pelos textos, que faziam parte dos chamados pecadores e
indesejáveis que se sentavam a comer com Ele, o que deixava perplexos, e até
escandalizados, os homens «bem conceituados». Percebemos, pelos textos, que
Jesus as acolhia com respeito e compaixão e com uma inusitada simpatia.
Percebemos, pelos textos, que, para Jesus, gerar filhos não era tudo na vida de
uma mulher: feliz antes a que escuta a Palavra de Deus e a põe em prática (Cf.
Lc 11, 27-28). Percebemos, pelos textos, que a grandeza e a dignidade da
mulher, como as do homem, radicam na sua capacidade de escutar a mensagem do
reino de Deus e de entrar nele. Percebemos, pelos textos, que a mulher não pode
ficar reduzida às lides da casa (Lc 10, 38-42). Percebemos, pelos textos, que a
mulher não pode ser culpabilizada para justificar o mau comportamento dos
homens (Jo 8, 1-8). Percebemos, pelos textos, que Jesus olhava de maneira
diferente dos outros para as mulheres e estas compreendiam-no muito bem (por
exemplo: Jo 4, 1-42; Mc 14, 3-9 e par.: Unção).
Quando queria falar de Deus, Jesus tanto escolhia exemplos
de homens (bom pastor, pai que acolhia o filho pródigo…) como exemplos de
mulheres (mulher que procura a dracma perdida…). Deus realiza algo parecido ao
que elas faziam na preparação do pão: introduzir no mundo uma força
transformadora, o fermento que leveda a massa; para falar de Deus que não
descansa enquanto não encontra quem anda perdido, Jesus tanto utiliza a
metáfora do pastor que deixa as 99 para ir à procura da ovelha que se
transviou, como da mulher que remexe toda a casa para encontrar a moeda que
perdera. No que à sua pessoa diz respeito, Jesus, ostensivamente, mostra que a
impureza ligada à mulher não tem sentido no reino que veio estabelecer entre
nós.
Numa ocasião, quando fez questão que a mulher saísse do
anonimato, não foi para a envergonhar ou culpabilizar por o ter tocado, mas
para enaltecer a sua fé, enaltecer a sua dignidade (Mc 5, 25-34).
Pelos textos, conhecemos apenas uma única vez em que Jesus
renuncia à sua opinião para aceitar a de interlocutores: no seu encontro com a
mulher pagã. No diálogo que trava com ela, compreende, efectivamente, que a sua
mensagem não pode ficar confinada ao povo de Israel, como julgava, mas que se
deve estender a todos os povos (Mc 7, 24-30; Mt 15, 21-29).
Enquanto os homens se afastavam das mulheres, dos pecadores,
dos doentes, para se aproximarem de Deus, Jesus não se afastava de ninguém para
poder estar perto de Deus.
As mulheres são as suas interlocutoras reais: discutem com Ele,
interrogam-no abertamente, antecipam seus gestos e palavras, ironizam, amam-no…
Sintetizando, comportam-se como convém ao ser humano, digna e livremente
(samaritana, cananeia, Marta na morte de Lázaro, etc.).
Nos textos, não se fala de “discípulas” porque só existia o
termo no masculino (o mesmo acontece com a palavra “apóstolo” que, ainda hoje,
os nossos dicionários não reconhecem, embora já incluam o termo “discípula”. Na
Carta aos romanos, Paulo designa Júnia como “apóstolo exímio”).
Pelos textos, sabemos que Jesus envia homens e mulheres em
missão. Depois da morte de Jesus, todos os evangelistas atestam que foram as
mulheres as mandatadas, as enviadas a anunciar a Boa Nova da Ressurreição. São
as apóstolas (que significa enviadas) do Cristo que venceu a morte.
Não encontramos, nos textos, que Jesus tivesse deixado algum
modelo de organização para o seu discipulado. Podemos, no entanto, verificar
que estabeleceu alguns princípios:
Sabeis que os governadores das nações as dominam e os
grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que
quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o
primeiro dentre vós, seja o vosso servo. Desse modo, o Filho do Homem não veio
para ser servido, mas para servir e dar a sua vida (Mt 20,24-28).
Os escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés.
Portanto, fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas
acções, pois dizem mas não fazem (...).Gostam do lugar de honra nos banquetes,
dos primeiros assentos nas sinagogas, de receber as saudações nas praças
públicas e de que os homens lhe chamem “Rabi”. Quanto a vós, não permitais que
vos chamem “Rabi”, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. A
ninguém na terra chameis “Pai”, porque um só é o vosso Pai, o celeste. Nem
permitais que vos chamem “Guias”, pois um só é o vosso guia, Cristo. Antes, o
maior dentre vós será aquele que vos serve (Mt 23,2-11).
Lucas (22,24-28) coloca a questão do serviço no contexto da
Ceia. Liga a celebração da Eucaristia ao serviço prestado aos irmãos: os chefes
das comunidades não podem esquecer o seu dever de servir. É nisto que consiste
a recomendação, de repetirem o Seu gesto eucarístico (Lc 22,19)[2].
Nesta mesma linha, o 4º Evangelho substitui o relato da Ceia
pelo do Lava-pés (Jo 13,2-17): Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz,
também vós o façais, isto é, assim como eu sou verdadeiro alimento para vós,
também vós deveis ser alimento para os outros, servindo-os. Sereis um grupo de
iguais, de irmãos, irmãs e mães e ninguém pode reclamar, para si, a autoridade
do pai porque ela pertence, exclusivamente, a Deus; ninguém pode reclamar, para
si, a função de guia porque ela pertence, exclusivamente, a Cristo e ao seu
Espírito (cf. Jo 16,13). Sereis um grupo inclusivo, aberto a todos e de modo
particular aos marginalizados religiosa e socialmente.
Nisto se distingue o movimento iniciado por Jesus – abolição
das hierarquias e abertura aos excluídos – de outros grupos religiosos que
procuravam controlar o acesso à presença e ao poder de Deus. «Jesus e o seu
movimento ofereciam uma interpretação alternativa da Torah, interpretação que
abria o acesso a Deus a todos os que eram membros do povo eleito de Israel e em
especial aos que, em virtude da sua situação social, tinham poucas hipóteses de
experimentar o poder de Deus no templo e na Torah»[3].
Esta compreensão que as primeiras comunidades tinham de si
mesmas, depressa se fixou numa fórmula lapidar adoptada como Credo baptismal: a
unidade da Igreja expressa-se na igualdade de todos os baptizados. O baptismo
no Espírito remove as discriminações históricas, invalida, por princípio, todos
os privilégios por causa da religião, sexo, nacionalidade, classe ou raça: Não
há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não homem e mulher, pois todos
vós sois um só em Cristo Jesus (Gal 3,28)[4]. Credo que oferecia uma «nova
visão às mulheres e escravos e negava todas as prerrogativas religiosas
masculinas na comunidade cristã baseadas em papéis sexuais. Assim como os
nascidos judeus tinham de abandonar a noção privilegiada de que somente eles
eram o povo escolhido de Deus, assim também os proprietários tinham de deixar o
seu poder sobre os escravos e os maridos o seu poder sobre as esposas e filhos.
Uma vez que esses privilégios socio-políticos eram ao mesmo tempo privilégios
religiosos, a conversão para o movimento cristão significava, para os varões,
abandonar as suas prerrogativas religiosas... Na medida em que esta
autocompreensão cristã igualitária afastava todos os privilégios masculinos de
religião, classe e casta, permitia não só aos gentios e aos escravos, mas
também às mulheres, exercerem funções de liderança dentro do movimento
missionário»[5].
Esta mesma compreensão do movimento de Jesus que deu origem
à Igreja leva o autor da carta aos Hebreus a insistir no uma-vez-por-todas do
sacerdócio e do sacrifício de Cristo (Hb 7,27; 9,12.26.28; 10,10; cf. Rm 6,10;
1Pd 3,18) porque, para os que se diziam cristãos, o seu encontro com Deus
acontecia no acto de servir o outro (Hb 13,1-3.16; Mt 25,31-46; cf. Lc
24,13-35)[6]. Jesus não inaugura um novo sacerdócio, mas atinge a sua
realização plena, fechando o ciclo sacerdotal[7]. Na Nova Aliança, o
Sumo-Sacerdote é Cristo e, Nele, todos somos sacerdotes, como diz a 1ª Carta de
Pedro (2, 4-10).
Segundo Elizabeth A. Johnson, «historicamente, à medida que
a Igreja dos primórdios se foi inculturando no mundo greco-romano, aos poucos
foi-se modelando de acordo com o padrão da família patriarcal e, em seguida,
dentro do padrão do império. Em razão disso, a imagem de Cristo assumiu os
contornos do chefe masculino, na família, ou do soberano, no império,
acontecendo um movimento correspondente de desenvolvimento similar, na visão do
ofício eclesiástico. Cristo foi então considerado o princípio da supremacia da
ordem cósmica, o rei soberano da glória, (…) cujo reino celestial estabelece e
sustenta a norma terrestre do chefe de família, do império e da própria Igreja.
A obediência a essas autoridades era a obediência ao próprio Cristo; a desobediência
a elas punha em xeque a própria fidelidade a Cristo»[8]
Em jeito de conclusão, recordo dois factos evangélicos sem
comentários:
- O que diziam de Jesus, perante o que Ele dizia e fazia:
Beelzebu está nele; é por Beelzebu, o príncipe dos demónios, que ele expulsa os
demónios (cf. Mc 3, 22; Mt 9, 34; 12,24; Lc 11, 15…).
- O que Jesus respondeu aos que O acusavam de não observar
as tradições: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando
escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de
mim. Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de
preceitos humanos. Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à
tradição dos homens.» E acrescentou: «Anulais a vosso bel-prazer o mandamento
de Deus, para observardes a vossa tradição» (Mc 7, 6-13).
[1] José Antonio Pagola, Jesus uma abordagem histórica,
Gráfica de Coimbra 2, 2008, p. 221
[2] Jean-Marie R. Tillard, Chair de l’Église, chair du
Christ. Aux sources de l’ecclesiologie de communion, Cerf, Paris, 1992,
104-105.
[3] Elisabeth S.Fiorenza, As origens cristãs a partir da
mulher, EP, São Paulo, 1992, 177.
[4] E. Schillebeeckx, Por uma Igreja mais humana, EP, São
Paulo, 1989,54-55; Elisabeth S.Fiorenza, Op. cit., 330.
[5] Elisabeth S. Fiorenza, Op. cit., 253.
[6] Jean-Marie R.Tillard, Op. cit.,
[7] J.M.R.Tillard, La “qualité sacerdotal” du ministère, in
NRT 5 (1973), 488-489.
[8]Aquela que É. O mistério de Deus no trabalho teológico
feminino, Petrópolis 1995, pp. 223-224

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