Cada pessoa que se encontra na aflitiva situação de ter sede torna-se um desafio para cada um de nós e interpela a responsabilidade mundial de quem tem a possibilidade de o saciar. Lembremo-nos que os pequeninos de que Jesus falava não são só as crianças, mas todos aqueles que clamam por um copo de água e cujo valor e dignidade é ignorado e a sede não é só a de água, mas também a sede de tantas outras coisas como a justiça, a paz, a educação. Com efeito, hoje centremo-nos na sede de água.
Temos de assumir que a água é um bem precioso que começa a escassear. O desperdício de água é uma injustiça grave.
A FALTA DE ÁGUA
Quando olhamos para a Terra vista do espaço, parece ter
muita água. Quase três quartos do planeta são cobertos por oceanos. Mas haverá
assim tanta água na Terra? Na realidade, a camada de água dos oceanos é fina e,
por isso, a quantidade de água é relativamente pequena. Se a Terra fosse do
tamanho de uma bola de básquete, toda a água do planeta caberia dentro de uma
bolinha de pingue-pongue. E mais: dessa bolinha de pingue-pongue, quase tudo,
97,5 %, é água salgada. E, desse pouco que sobra, 70 % é água congelada nos
polos, 30 % está debaixo da terra e apenas 0,3 % é água potável, acessível à
população.
MÁ DISTRIBUIÇÃO
Além da evidente escassez de água potável, a que existe está
mal distribuída: sobra em algumas regiões e falta noutras. Várias regiões do
mundo, especialmente na África, estão a viver secas prolongadas que levam, na
opinião do Papa Francisco, «ao aparecimento de certas epidemias como a diarreia
e a cólera que aumentam o sofrimento e a mortalidade infantil», na encíclica Laudato Si’, na qual dedica quatro
parágrafos a analisar o problema da água (29-31). Esta situação é inadmissível
pois, como diz o papa, «o acesso a água potável e segura é um direito humano
essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das
pessoas». Hoje a escassez de água afeta mais de 40 % da população do nosso
planeta, segundo a ONU, que prevê que, até 2025, ou seja, em apenas oito anos,
1,8 mil milhões de pessoas viverão em países ou regiões com absoluta escassez
de água.
Agua: fonte de vida
Na Bíblia, a água é vista como fonte de vida. Na região do
Médio Oriente, que constitui o cenário bíblico em que decorrem as narrativas do
povo de Israel, a água é um recurso particularmente precioso, porque a paisagem
é árida ou semiárida, com precipitações de chuva marginais e sazonais, e muitas
páginas bíblicas, bem como vários episódios da história de Israel, são
atravessados pelo terror da seca e das suas consequências devastadoras.
Compreende-se, assim, a abundância de experiências e relatos à volta da sede,
da seca, dos poços, e, sobretudo, compreende-se que dar de beber a quem tem
sede é um dever absoluto, incluído na lei da hospitalidade e, recusar-se a
fazê-lo significaria condenar o sedento à morte. A tortura da sede, não dar de
beber a quem tem sede, conduz a uma morte horrível. Torna-se necessário e
urgente reconhecer que a água é um direito e não uma mercadoria, e que a
disponibilidade de água e o acesso à água potável constitui um direito
essencial. Ou é reconhecida como um direito, ou transformar-se-á cada vez mais
num privilégio. Como salientou o Papa Francisco na recente visita ao Quénia,
«negar a água a uma família, sob qualquer pretexto burocrático, é uma grande
injustiça, sobretudo quando se lucra com essa necessidade».
Abel Dias, em revista Audácia, fevereiro de 2016

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