A doença é própria da condição
humana e mostra o nosso lado mais frágil, os nossos limites e incapacidades. A
doença, a vida e a morte são conceitos que aparecem unidos e que nos convidam a
refletir sobre o passado, o presente e o futuro e, principalmente, sobre o
sentido último da nossa existência. Assistir quem se encontra numa situação de
limite e fragilidade é, não só uma obra de misericórdia, mas também um
imperativo para os cristãos que são chamados a porem em prática a misericórdia.
Doença: experiência de limite
Viver com os limites que qualquer
doença nos impõe não é tarefa fácil, nem para o doente nem para aquele que o
assiste. É preciso recuperar a esperança, muitas vezes também ela afetada, de
que a tormenta passará, e a doença não terá a última palavra.
As pessoas doentes precisam de
reforçar a autoestima e a vontade de viver. Em horas difíceis, é muito
importante ter alguém com quem desabafar, a quem abraçar, com quem partilhar a
angústia de uma certa derrota perante o sofrimento.
Ir ver o doente significa escutá-lo,
encontrar-se com ele, reavivar-lhe a confiança.
Infelizmente, muitas vezes os
doentes são separados do resto do mundo, depositados em lares ou hospitais, com
a desculpa de que aí são bem atendidos (e até pode ser!...). Escondemo-los das
crianças e até dos jovens, visitamo-los à pressa e, quando estamos na sua
presença, não somos capazes de olhá-los nos olhos nem sabemos o que dizer.
A existência de situações limite como
é a doença envergonha a sociedade perfeita que a mentalidade moderna nos quer
impor e por isso, diz-se, é melhor ignorar a sua existência e todos aqueles que
dela padecem.
Assistir é encontrar-se…
A assistência aos enfermos é muito mais que uma simples
visita caritativa, é, antes de mais, um encontro. Um encontro entre pessoas que
partilham a mesma condição humana, com potencialidades e limites. Curioso é a
língua hebraica, para indicar uma visita ao doente, usar por vezes o verbo ra’ah, que significa «ver», mas este «ir
ver o doente» significa, em sentido mais profundo, «escutar» o próprio doente,
encontrar-se com ele, deixar que seja ele a guiar o encontro, não fazer nada
além do consentido por ele, ater-se ao quadro relacional que ele apresenta.
Podemos, então, intuir que assistir o doente não é só
promover as necessidades essenciais como alimentação, medicação, higiene,
roupa… mas possibilitar um encontro, mais íntimo e pessoal que promova a dignidade,
a paz, a tranquilidade, a espiritualidade… enfim, um encontro que devolva a
confiança e a esperança. O que o paciente mais deseja é recuperar a saúde, daí
que seja fundamental e importe devolver-lhe a confiança na vida: nas suas
energias interiores, físicas, psíquicas e espirituais, pois elas podem atuar
como verdadeiros medicamentos.
Desafio para hoje
A prática da obra de misericórdia de visitar os doentes é um
desafio permanente e atual para cada um de nós. O Papa Francisco não se cansa
de nos desafiar a ser o rosto misericordioso de Deus: «Não nos deixemos cair na
indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de
descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver
as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria
dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas
mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da
nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o
nosso.»
Abel Dias, em revista Audácia, maio de 2016

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