Corrigir os que erram não é uma tarefa fácil. Na sociedade,
por um lado, ninguém gosta de ser chamado à atenção. Por outro, há uma
tendência para não corrigir e deixar andar. No entanto, corrigir os que erram é
necessário: ajuda a formar o cérebro e estrutura a personalidade. Porém,
lembremo-nos que a correção para ser fraterna e misericordiosa, deve sempre ser
feita na hora certa, com as palavras corretas, com sentimentos de caridade e
amor, de modo que a pessoa corrigida perceba o bem que lhe queremos.
correção na caridade
Corrigir, segundo o verbo grego nouthetein, significa «colocar a mente sobre outro, para o ajudar a
descobrir os seus erros e a evitá-los». Trata-se, portanto, de um olhar e
atenção amorosa, de uma vigilância fraterna sobre o outro, a fim de consertar
os seus eventuais erros. Por outro lado, a palavra «corrigir», na sua origem
latina, corrigere significa e implica
«dirigir juntos» e mostra a dimensão partilhada e relacional da correção, em
que um ajuda o outro a orientar a sua vida, na humanidade e santidade.
Ao corrigir e ser corrigido,
saio da indiferença.
Não existe correção para o mal: o fim último da correção
deve ser sempre o bem e o modo para lá chegar terá de ser através da caridade.
A correção deve ser uma realidade vivida no amor e na misericórdia que brota de
uma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Como nos diz o Papa Francisco,
«não se pode corrigir uma pessoa sem amor e sem caridade. Não se pode fazer uma
cirurgia sem anestesia. A caridade é como uma anestesia, que ajuda a receber o
tratamento e aceitar a correção».
Correção com
humildade
No ato de corrigir e de ser corrigido, a humildade é uma
atitude fundamental, não só de quem se aproxima para incentivar à correção, mas
também de quem é corrigido. A correção humilde é fruto da atenção e do cuidado,
visando denunciar o erro e salvaguardar a vida e a dignidade daquele que o
praticou. Quando corrijo, não me devo considerar superior ou perfeito, mas, com
humildade e humanidade, devo expressar a caridade (amor e não pena) ao próximo.
E o mesmo me é pedido se sou corrigido. A correção que é fraterna de verdade
implica sair do individualismo da minha perfeição individual, para me tornar
(co)responsável pela santidade do meu irmão.
Ganhar um irmão
«Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o
entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão» (Mt 18,15). Como
nos diz Jesus, a correção fraterna visa ganhar o irmão e não perdê-lo. A
correção fraterna é um impulso para a salvação do outro; é a capacidade de
saber estender-lhe a mão; é emprestar-lhe os olhos para que enxergue a vontade
de Deus, pois, muitas vezes, o erro deixa-nos incapazes de ver, e, na
escuridão, acabamos por magoar-nos nos obstáculos da vida.
Corrigir os que erram, de forma fraternal, é o oposto da
indiferença, pois, ao corrigir, mostro não só que sou responsável pela
santidade do meu irmão, mas rompo com o individualismo que me dissocia do outro
e que me leva a pensar apenas em mim e na minha perfeição individual.
Ao corrigir e ser corrigido, saio da indiferença em que
muitas vezes me refugio para me proteger do duro encontro com o outro. Na
missão de corrigir são sábias as palavras do Apóstolo Paulo: «Corrigi os
indisciplinados, encorajai os desanimados, amparai os fracos e sede pacientes
com todos» (1Ts 5, 14).
Abel Dias, em revista Audácia, dezembro de 2016

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