A fome é uma ameaça constante às diferentes formas de vida. Pode
ser o resultado da escassez dos alimentos provocada por más colheitas: umas
vezes, em consequência da Natureza agreste, outras, das guerras ou das pestes
que têm impedido o cultivo dos campos.
Ao lermos o Antigo Testamento, na Bíblia, deparamos com
inúmeros trechos nos quais a fome ameaçava a sobrevivência de populações
inteiras. É esta experiência do Povo de Israel, e também a denúncia de
injustiças, que leva Jesus, no Novo Testamento, a afirmar que dar de comer a
quem tem fome é uma obra de misericórdia. Podes ler, por exemplo, a parábola
que contou do pobre Lázaro e do rico avarento (Lc 16, 19-31).
A FOME HOJE
A fome não é um problema sem solução ou um facto a que nos
devemos resignar. As suas causas são políticas e económicas, e a principal é a
distribuição desigual das riquezas. Na maior parte dos casos, a subnutrição não
é o resultado da impotência humana perante a Natureza, mas é fruto da desavergonhada
apropriação por alguns daquilo que deveria ser património de todos.
Combater a fome é essencial para a segurança e a paz do mundo.
A fome continua a ser a principal causa de morte no mundo.
Segundo os últimos relatórios da ONU, 18 milhões de pessoas morrem de fome por
ano e, destas, a cada cinco segundos, uma criança; e uma em cada quatro pessoas
sofre com os efeitos da insuficiência de nutrientes.
O pão nosso de cada dia
Ao rezarmos o Pai-Nosso, o pedido de pão é dirigido a Deus.
Esta petição diz respeito ao pão material, ao alimento essencial para viver,
símbolo de tudo quanto o ser humano precisa para viver.
Ao pronunciarmos este pedido, não o fazemos só para nós, mas
em nome de todos: «O filho que pede pão ao Nosso Pai não pode esquecer o irmão
que dele carece» (Luciano Manicardi, monge). Pedir o pão a Deus implica assumir
a responsabilidade por quem não tem pão: uma responsabilidade que decorre e
está no coração da Eucaristia, onde Jesus Cristo é pão repartido. Os cristãos
fazem-no recordando o que afirma São Tiago na sua Carta: «Se um irmão ou uma irmã
estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser “Ide
em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é
necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?» (Tg 2, 15-16).
DIGNIFICAR A
HUMANIDADE
Nos finais de novembro, participei, mais uma vez, com alunos
e colegas professores, na campanha do Banco Alimentar contra a Fome. Depois
refletimos nas aulas sobre as origens do flagelo da fome e as formas de a
conseguirmos erradicar. Foi unânime a perceção de que a existência de pessoas
com fome é uma das maiores vergonhas da sociedade contemporânea. E ressoaram as
palavras do Papa Francisco, quando recebeu em audiência os membros da Fundação
Banco Alimentar: «Hoje devemo-nos confrontar com esta injustiça [a fome] e,
permito-me dizer, com este pecado: num mundo rico de recursos alimentares,
demasiados são aqueles que não têm o necessário para sobreviver; e isto não
somente nos países pobres, mas sempre mais também nas sociedades ricas e
desenvolvidas… Compartilhar o que temos com aqueles que não têm os meios para
satisfazer uma necessidade tão primária educa-nos à caridade e à misericórdia.»
E pediu que os membros do Banco Alimentar tratem as pessoas não como números,
mas como amigos. «Assim, saberão olhá-los nos olhos, apertar as suas mãos,
descobrir neles a carne de Cristo e a ajudá-los a reconquistar a sua dignidade
e recolocá-los em pé.»
Abel Dias, em revista Audácia, janeiro de 2016

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