Está implícito nesta obra de misericórdia o valor do
acolhimento do viajante e do estrangeiro, valor praticado em Israel muito antes
do tempo de Jesus, pois era considerada uma desonra deixar alguém passar a
noite na rua.
Para os gregos antigos era até um dever religioso visto o próprio
Zeus ser considerado o protetor dos estrangeiros. Mais tarde, esta obra de
misericórdia aludiu à prática de acolher quem está a fazer uma peregrinação e
consistia em dar pousada a peregrinos, a viajantes, aqueles que não têm como e
onde se abrigar.
É de realçar que a palavra «hospitalidade» traduz a palavra
grega filoxenía, que significa
literalmente «amor», «afeição», «bondade para com estrangeiros». Este nexo
entre hospitalidade e amor (filoxenia e agapé) é o traço marcante que
caracteriza a hospitalidade cristã.
Hospitalidade
é oferecer às pessoas um espaço onde possam ficar melhores
e nós mudarmos com elas.
O que diz a Bíblia
acerca do acolhimento
Na Bíblia, o povo de Israel é marcado por uma tensão entre o
acolhimento ao hóspede e por uma certa desconfiança em relação ao estrangeiro,
enquanto ameaça para a identidade do povo. No entanto, o acolhimento do
estrangeiro foi sempre um valor incentivado e apreciado. É importante
entendermos que a hospitalidade da época não deve ser entendida, nos termos
modernos, como um simples acolhimento ao hóspede, com cama e mesa, mas antes
como uma radical inclusão do hóspede na família de quem o acolhe.
São muitos os episódios de acolhimento na Bíblia, por
exemplo, no livro do Génesis três peregrinos são acolhidos por Abraão e sua
esposa. Também uma viúva de Sarepta acolheu o profeta Elias. Jesus foi muitas
vezes acolhido e incentivou essa prática aos seus discípulos, como na parábola
do Bom Samaritano, onde o estrangeiro e inimigo se transforma em próximo.
A cultura do
acolhimento
No geral, hospitalidade/acolhimento é tratar os estranhos
como iguais, criando espaço para que eles recebam proteção, provisão e cuidado,
dando-lhes assistência e guiando-os para o seu próximo destino.
Mas nós acolhemos porque também somos acolhidos: cada um de
nós, mal vem ao mundo, torna-se hóspede.
O pobre, o sem-abrigo, o vagabundo, o estrangeiro, o
refugiado, o mendigo, aquele cuja humanidade é humilhada pelo peso das faltas e
das privações, das rejeições e do abandono, do desinteresse e da estranheza,
começa a ser acolhido quando eu começo a sentir como minha a sua humilhação, a
sua vergonha; quando começo a sentir que a deterioração/degradação da sua
humanidade é, também, a minha própria deterioração/degradação.
Hospitalidade, portanto, significa, primeiramente, a criação
de um espaço livre onde o estranho possa entrar e tornar-se um amigo, em vez de
inimigo. Acolher o estrangeiro é mais do que abrir a própria casa ao outro é,
mais profundamente, fazer de si próprio a casa, a morada onde o outro é
acolhido: acolher é dar tempo e espaço para o outro, e, escutando-o, escavamos
em nós um espaço interior para ele.
Abel Dias, em revista Audácia, abril de 2016

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