Nos dias de hoje, a expressão “ensinar os ignorantes” é mal
compreendida e desprezada. Primeiro,
ninguém gosta de ser chamado ou considerado ignorante e, segundo, ensinar é uma
tarefa cada vez mais desconsiderada, pois toda a gente se considera informada e
conhecedora de tudo. Realmente há mais informação, o que não equivale, por si
só, a uma melhor formação. Saber não é apenas acumulação de informação,
conservação ou recuperação de dados. O verdadeiro conhecimento implica de algum
modo “co-nascer”, voltar a nascer, deixar-se formar e transformar pelo
conhecimento adquirido, de modo que a minha vida se torne outra, com uma nova
visão da realidade. Daí que ensinar os ignorantes é uma obra de misericórdia que
importa atualizar, contextualizar e praticar.
Ensinar é deixar uma marca
Ensinar os ignorantes é proporcionar e incentivar um clima
de procura da verdade. A palavra «ensinar» significa instruir sobre, indicar,
assinalar, marcar, mostrar algo a alguém..., é a capacidade de ajudar alguém a
construir-se, a encontrar um caminho com metas, a orientar-se na sua sede de
conhecimento para a luz.
Implícito no conceito de ensinar está o verbo “instruir”,
que sugere a ideia de que o conhecimento é uma construção que se faz, por
etapas, por níveis, de modo que a pessoa alicerce e construa o seu próprio
projeto de vida.
Ensinar é similarmente orientar, isto é, acender uma chama,
ajudar o outro a procurar a luz e a deixar-se iluminar,
de modo que aprenda a
situar-se na vida,
a ser ele mesmo, a vir ele próprio à luz.
Neste sentido, o
ensino é uma espécie de maiêutica, arte de fazer vir à luz, de abrir os olhos
ao cego, de ajudar o outro a ver o mundo com olhos novos, oferecendo-lhe
palavras que iluminam a vida.
No dever de ensinar está também incluído o dever de aprender
com aquele que se quer ensinar. Aquele
que ensina reconhece a sua ignorância e, por isso, não se julga dono da
verdade, mas deixa-se possuir pelo desejo de a procurar e conhecer.
Quem são os ignorantes
A palavra «ignorante» tem a sua raiz no latim ignorantia, cujo significado é a falta
de conhecimento em particular ou da cultura em geral. Ignorância pode
significar também imperfeição no conteúdo de conhecimento ou falta de validade
das informações tratadas. Desta forma, o ignorante constrói um mundo falso, com
noções erróneas a respeito dele mesmo e do mundo que o envolve. Esta forma de
viver e de pensar incapacita-o de ver e aceitar as verdades.
Em certa medida todos somos ignorantes, incapazes de abarcar
toda a verdade, mas essa consciência deve transformar-nos em buscadores da
verdade e, nesse aspeto, a ignorância pode ser douta, como lhe chamam os
filósofos. Ao reconhecermos a nossa própria ignorância, temos consciência de
que nada sabemos e isso é um começo para superar as ilusões do falso
saber, ou de um saber que, apesar de limitado, se considera ilimitado.
O verdadeiro mestre
Segundo a Unesco, existem no mundo 743 milhões de adultos
analfabetos, cerca de 11 % da população mundial. É uma realidade demasiada dura
que se torna um flagelo vergonhoso para um mundo que se diz moderno. Ensinar os
ignorantes tem de significar alfabetizar tantas pessoas, que nunca foram à
escola ou a abandonaram precocemente…
Para nós, cristãos, ensinar os ignorantes é também evangelizar os que
desconhecem Cristo, o verdadeiro mestre, na certeza de que a fé oferece uma
nova visão da vida, que torna possível ao cristão ver tudo de novo e, a partir
daí, reinventar-se e renovar todas as coisas!
Abel Dias, em revista Audácia, novembro de 2016

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