Num ambiente tradicionalmente
cristão, a morte de alguém é suficientemente divulgada e o acompanhamento do
defunto acontece com naturalidade. Acompanhar as famílias em momentos tão dolorosos
e difíceis é uma obra de misericórdia, um momento para confortar na fé e na
amizade.
Nas paróquias há sempre
familiares, amigos e outras pessoas que estão presentes e raros são os funerais
sem cerimónia religiosa. Pode, no entanto, acontecer, em ambientes mais urbanos
e menos cristianizados, onde o anonimato facilmente se instala, que alguns
defuntos não sejam acompanhados e honrados. O individualismo, a indiferença e o
isolamento dos dias de hoje tendem a esconder a morte e todos os rituais a ela
associados, a censurar o luto e a delegar noutros as práticas e os ritos de
despedida.
Uma questão de humanidade
A consciência da morte existe
desde a origem da humanidade e as pessoas desenvolveram a prática da sepultura
dos mortos. Os ritos de inumação (sepultura debaixo da terra) são os mais
antigos que a arqueologia nos permite encontrar.
A sepultura dos mortos revela
o grau de civilização de uma sociedade. «Julga-se um povo pelo modo como
sepulta os mortos», dizia Péricles, político e orador grego, pois, quando não
há respeito pelos mortos, também não se espera que o haja pelos vivos.
Ao acompanharmos os defuntos,
acompanhamos as suas famílias e manifestamos o apreço
que lhe tínhamos e a dignidade que eles mantêm.
Curiosamente, o pensamento
humano relacionou homo (homem) com humus (terra) e a imagem bíblica da
criação do homem a partir da terra fizeram da inumação a forma de sepultura
privilegiada no Ocidente, embora, atualmente, também se aceite a cremação. Na
tradição bíblica, a sepultura foi sempre tida na máxima consideração, a par dos
cuidados a prestar ao cadáver (lavar o defunto, pentear, vestir, etc.). Como
nos diz o Catecismo da Igreja Católica, «os corpos dos defuntos devem ser
tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição».
Presença em vez de flores
O ato de sepultar os mortos
revela o respeito por quem chega ao fim da sua caminhada terrena, pela sua
memória, pela sua herança. Trata-se de um último gesto para com o corpo humano,
o mesmo que, em virtude da sua fragilidade, precisou de ser cuidado desde o seu
nascimento. Por outro lado, sepultar é assumir a separação, já que o corpo do
defunto não nos pertence.
Na celebração das exéquias, a Igreja encomenda a Deus os
mortos, reanima a esperança dos fiéis e dá testemunho da fé na futura
ressurreição com Cristo. Por isso, sepultar os mortos é uma obra de
misericórdia para com um irmão que chegou ao fim da sua peregrinação, é um ato
de louvor ao Criador e Senhor da vida, é uma oportunidade para se ver
confrontado com a sua própria fragilidade, mas é também uma manifestação de fé
e de esperança na vida que continua.
Por outro lado, não se pode
esquecer o acompanhamento e apoio devidos aos que choram, aos que ficam mais
sós e desamparados. Porque não é fácil gerir um desaparecimento. A proximidade
expressa comunhão e manifesta solidariedade nestas horas difíceis.
As flores que se podem enviar
não substituem nunca uma presença amiga e reconfortante junto de quem chora e
sofre, por mais discreta que seja, num momento de dor e sofrimento como é a
morte de um ente querido. E a oração de sufrágio continuará a ser a mais bela e
oportuna homenagem a quem parte, mesmo se marcada pelo silêncio.
Abel Dias, em revista Audácia, julho/agosto de 2016

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