Visitar aqueles que estão privados da sua liberdade e
sedentos de uma palavra de esperança é uma obra de misericórdia. É afirmar e
valorizar a esperança cristã, a esperança de que um novo recomeço é possível.
O Papa Francisco, nas inúmeras visitas que tem feito a
reclusos, não só tem tido palavras de alento como tem convidado os reclusos a
aproveitarem o tempo de reclusão para abrirem as suas vidas a Deus. Numa cadeia
da Bolívia, afirmou que «quando Jesus entra na vida de alguém, essa pessoa não
fica detida no seu passado, antes começa a olhar o presente de outra maneira,
com outra esperança. A pessoa começa a olhar-se com outros olhos a si própria,
a sua própria realidade. Não fica presa ao que sucedeu, pelo contrário, é capaz
de chorar e de encontrar aí a força para voltar a começar. […] Não existe lugar
onde a misericórdia divina não chegue e nem há quem não possa ser por ela
tocado». A nossa visita aos reclusos é, acima de tudo, facilitar o encontro e o
toque com Jesus.
A perda da liberdade
A condenação de uma pessoa à prisão e, consequentemente, à
perda de liberdade, é o resultado do julgamento que a sociedade faz de quem
cometeu um delito. E visa afastá-la do convívio social para proteger a
sociedade de novos crimes e dar oportunidade à pessoa condenada de corrigir-se.
Acontece que, ao perder a liberdade, muitas vezes, o preso perde também a sua dignidade
e o sentido de vida. Muitas prisões constituem um dos piores lugares em que o
ser humano pode viver. A prometida reeducação não acontece e o que ocorre é
exatamente o contrário. As pessoas saem “instruídas” para novos delitos, o que
nos deve fazer refletir como é que estamos a reeducar e a reintegrar estas
pessoas.
«Quando me visitam pessoas que não me conhecem e não têm qualquer ligação comigo, sinto-me pequeno e pergunto-me que força é essa que torna as pessoas capazes destes gestos?» (Zacarias, recluso).
Visitar os presos, ou ajudá-los na sua reinserção social, é
servir os que foram afastados da sociedade. Há que levar a essas pessoas a
nossa proximidade, a nossa compreensão, os nossos conselhos e, acima de tudo, a
nossa oração.
Outros tipos de
prisões
Mas esta obra de misericórdia não se limita aos presos que
foram julgados e condenados pelo sistema de justiça. Deve ser estendida a todos
aqueles que estão aprisionados, não em celas, mas em redes de outro tipo:
álcool, pornografia, drogas e vícios que mergulham a pessoa num abismo do qual
dificilmente poderá sair sozinha. Também a esses a nossa visita compassiva e
misericordiosa deve apontar caminhos de libertação que passam necessariamente
pelo encontro com Cristo Ressuscitado.
É possível ser
diferente…
O P.e João Gonçalves, para imitar Jesus Cristo
que veio para «proclamar aos aprisionados a libertação» (Lc 4, 18), passa a
vida a visitar os presos. Conta: «Mais do que um sentimento de solidariedade ou
até humanismo, a visita aos presos é obra de misericórdia, no sentido em que o
coração passa a bater a outro ritmo e volta-se de forma espontânea para rostos
que retratam os sentimentos que moldaram o próprio Jesus: a solidão, o
abandono, o medo, a vontade de transformar a realidade presente. E, no final de
cada visita, a lembrança de um sorriso, ou mesmo a lembrança de um rosto
envergonhado e arrependido, alimentam a esperança de que é possível ser
diferente. Vale a pena estar ali todas as semanas, porque, assim, a fé se torna
uma fonte inesgotável de crescimento.»
Abel Dias, em revista Audácia, junho de 2016

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