A quinta obra de misericórdia espiritual convida-nos a
perdoar as injúrias. O Papa Francisco disse: «Não se pode viver sem perdão.» O perdão é essencial a cada
pessoa. Perdoar e sentir-se perdoado pode produzir uma grande liberdade e paz
interior. Perdoar constitui uma
excelente obra de misericórdia que, além de nos fazer um grande bem, faz-nos
herdeiros da promessa de Jesus: «Bem-aventurados os misericordiosos porque
alcançarão a misericórdia.»
INJÚRIA
A injúria é uma palavra ou ação que leva à indignação e que
fere a dignidade da pessoa, prejudicando a sua reputação e amor-próprio. Todos
nós, em algum momento da nossa vida, já sofremos ofensas, calúnias e injúrias
que, não só de feriram gravemente o nosso coração, provocando feridas emocionais,
como produziram também ódios, ressentimentos e até vinganças. Essas ofensas,
além de nos fazerem sofrer, roubam-nos a serenidade e a paz, interior e
exterior. É aí que o perdão pode ter um papel importante.
PERDÃO
Jesus ensina-nos que o perdão não significa atenuar a
responsabilidade de quem cometeu o mal: o perdão absolve, precisamente, aquilo
que não é desculpável, aquilo que é injustificável. O mal cometido permanece
como tal, assim como permanecem as cicatrizes do mal infligido.
O perdão, igualmente, não elimina a irreversibilidade do mal
sofrido, mas assume-o como passado e, fazendo prevalecer uma relação de graça
sobre uma relação de represália, cria as premissas de uma renovação da relação
entre ofensor e ofendido.
O perdão à maneira de Jesus
é a possibilidade de um caminho novo que faço,
a partir daí, com aquele a quem perdoo.
O perdão não é sinónimo de fraqueza ou ausência de
amor-próprio; pelo contrário, demonstra grandeza de alma e muita coragem. O
mais fácil seria «pagar na mesma moeda», relembrar constantemente o sucedido,
mostrar-se continuamente ofendido e não sair de um registo de vitimização. Mais
difícil é fazer um esforço por perdoar e avançar, mesmo que não se seja capaz
de esquecer.
Por tudo isto, o perdão abre um caminho conjunto, de
responsabilidade mútua, em que posso ajudar o outro a emendar-se.
LUGAR DE PERDÃO
Cada um de nós é chamado a ser espaço e lugar de perdão:
«Perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo» (Efésios 4,
32). É fundamental que cada um de nós (re)descubra que foi perdoado por Deus em
Jesus Cristo, e isso faz com que o ato do perdão dado não seja tanto (ou
apenas) um ato de vontade, mas a abertura ao dom da graça do Espírito Santo que
nos convida a fazer o mesmo. O perdão, portanto, depois de concedido, pode
(re)abrir a relação, dando lugar à reconciliação. Jesus não se cansa de nos
ensinar a separar o pecado do pecador, a condenar o pecado e a dar novas
oportunidades ao pecador, porque o homem é sempre maior que a sua falha.
O perdão à maneira de Jesus é a possibilidade de um
caminho novo que faço, a partir daí, com aquele a quem perdoo. Quantas pessoas encontramos
marcadas por alguém a quem não querem perdoar e que, por causa desse fardo,
continuam presas a uma situação dolorosa? Ao contrário, na medida em que apaga
esses sentimentos vingativos, o perdão acalma e traz serenidade. Pode demorar
tempo a chegar, mas nunca será tarde.
Abel Dias, em revista Audácia, fevereiro de 2017

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