Num mundo que pretende apresentar-se como perfeito, é cada
vez mais frequente existirem dificuldades de relacionamento e aceitação das
fraquezas dos irmãos. Não é por acaso
que o Novo Testamento da Bíblia nos exorta, com frequência, a termos paciência
e a suportarmos os outros: «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos
mutuamente se alguém tiver razão de queixa contra outro» (Carta aos Colossenses
3, 13). O desafio desta obra espiritual é suportar, com mansidão, os que estão
próximos de nós, com todas as suas limitações, fraquezas, defeitos,
adversidades e misérias.
Suportar a fraqueza
Esta obra de misericórdia diz respeito a todo o tipo de
fraqueza humana: complexos, vícios, defeitos de carácter, por exemplo. Cada um
de nós tem as suas fraquezas, dificuldades, limites e imperfeições. Alguns
destes limites podem ser superados rapidamente, mas, outros, não. E nem todas
as pessoas conseguem lidar com a fraqueza da mesma forma: algumas são mais
lentas e outras possuem limites que não podem ser facilmente superados e
suportados.
Quem de nós não se sentiu incomodado pela debilidade
e fraqueza de alguém?
A palavra «suportar» parece indicar (negativamente) um peso
quando temos de pôr em prática esta obra de misericórdia. Porém, lembremo-nos
que o que deve ser suportado é a fraqueza do próximo e não a pessoa. Não é nada
fácil, especialmente no mundo em que vivemos, entender que a fraqueza do outro
não deve ser considerada um peso, um obstáculo, mas uma oportunidade para a
fraternidade. Quem de nós não se sentiu incomodado pela debilidade e fraqueza
de alguém?
A nossa natureza é limitada, mas pode refletir a força de
Deus. Face às fraquezas dos outros, cada um de nós é chamado a supri-las com as
nossas aptidões e qualidades, e, claro, a superar-se com a ajuda dos outros.
Com paciência e
mansidão…
A Bíblia fala de Deus como «lento para a ira», para indicar
a sua imensa paciência e mansidão. A paciência e mansidão são o olhar generoso
de Deus fixo em nós, olhar que não se detém nos pormenores, mas que se foca no
essencial, no grande amor que Ele tem por cada um de nós.
Paciência e mansidão, ao contrário do que se possa pensar,
não são passividade, mas ações gratuitas e amorosas destinadas a que ninguém se
perca.
Paciência e mansidão são frutos do Espírito Santo. A
paciência exige o cultivo de algumas qualidades como a calma, a serenidade e,
sobretudo, o reconhecimento do direito do outro ter o seu tempo.
A mansidão é uma obra ativa, inteligente e corajosa, que
recusa responder ao mal com o mal.
Hoje, porém, a paciência perdeu grande parte do seu
fascínio: os tempos acelerados suscitam a impaciência, o não adiamento, o «já»
que não dá lugar à espera.
E a falta de mansidão torna-se falta de vontade de espera e
de compreensão do outro que, com demasiada rapidez, corre o risco de se tornar
incómodo ou aborrecido, um verdadeiro empecilho.
Praticar a paciência e a mansidão nesta obra de misericórdia
é confirmar a nossa confiança nos outros e trabalhar a seu lado e em seu favor
contra a tentação do desespero. Então, suportar é também ser suporte: uma
pessoa paciente e de mansidão ajuda os outros a carregar os pesos que a própria
vida lhes impõe. Foi isso que Jesus Cristo fez por nós.
Abel Dias, em revista Audácia, março de 2017

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