Vestir os nus é uma obra de misericórdia corporal que visa
atender uma necessidade básica do ser humano que é o vestuário. Desde
remotamente que o vestuário faz parte integrante de um direito mais vasto, o
direito a um nível de vida adequado, reconhecido pelo artigo 25.º da Declaração
Universal dos Direitos Humanos. O vestuário serve para cobrimos o exterior do
nosso corpo e escondermos aquilo que mais amamos e protegemos: a nossa
dignidade, a nossa interioridade.
A NUDEZ COMO PERDA DE DIGNIDADE
Na Bíblia, a nudez é vista essencialmente como negativa pois
retira a identidade e dignidade ao ser humano. No livro do Génesis, a nudez
aparece como consequência do pecado: Adão e Eva, despidos da graça de Deus,
olham-se com vergonha e escondem-se de Deus. A transgressão do homem no Éden
faz com que ele saia do espaço de comunhão com Deus e se dê conta da sua nudez,
ou seja, da sua condição de criatura limitada e frágil, e que comece a sentir
desconfiança, vergonha e temor.
Aparece também na Bíblia o conceito de nudez aliada aos
inocentes, humilhados, pobres e marginais, que necessitam de alguém que lhes dê
voz e alguém que lhes mostre uma compaixão ativa e que os revista com as vestes
dignas dos filhos de Deus, como nos adverte São Tiago (2, 15-16):
«Se um irmão
ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?»
A nudez
não é só a falta de poupa, mas é também a situação de pobreza e miséria de
muitos que foram expostos à humilhação, à indignidade, à enfermidade, à
ausência de defesas e ao perigo.
O REVESTIMENTO DA NUDEZ
O revestimento da nudez não se encontra apenas no início da
vida humana e da passagem da natureza à cultura, mas também tem uma importância
significativa na iniciação cristã, como o denota a antiga prática batismal de
colocar uma veste branca sobre o recém-batizado. A imposição da veste branca no
Batismo indica que quem é batizado recebe a dignidade cristã, recebe a
santidade. Esta veste simboliza a prática dos ensinamentos de Jesus Cristo que
devemos fazer para a conservar mais branca do que a neve e com ela nos
apresentemos, um dia, perante Deus. Devem ecoar sempre no nosso coração as palavras
que ouvimos no nosso batismo: «Agora és nova criatura, e estás revestido de
Cristo. Esta veste branca seja para ti símbolo da dignidade cristã. Ajudado
pela palavra e pelo exemplo da tua família, conserva-a imaculada até à vida
eterna.»
O QUE PODEMOS FAZER
Não podemos ficar indiferentes diante da necessidade de
roupas por que passam muitas pessoas e muitas famílias. É preciso ter a
sensibilidade do coração a fim de que saibamos fazer alguma coisa para vestir
as pessoas carentes, cujos corpos são templos do Espírito Santo e merecem ser
vestidos com dignidade. Esta obra de misericórdia pode ser realizada pela
oferta de roupas que sejam úteis a uma família pobre e necessitada, oferta que
pode ser entregue diretamente para uma determinada família, ou entregue a uma
instituição de caridade que preste essa assistência. Todos nós podemos doar
roupas que já foram usadas, mas estão em bom estado e podem ser bem
aproveitadas.
A roupa que se amontoa e ganha mofo nos nossos armários
pertence e faz falta a muitos pobres. Se assim procedermos, passaremos a fazer
parte daquele grupo de pessoas a quem Jesus diz: «Vinde, benditos de meu Pai,
tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque
estava nu e me vestistes... Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que
fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o
fizestes» (Mt 25, 34).
Abel Dias, em revista Audácia, março de 2016

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