«Nascemos com olhos, mas não com o olhar…», comentário ao Evangelho do 4.º Domingo da Quaresma


Nascemos com olhos, mas não com o olhar…
Temos, ouvidos, mas não sabemos escutar…
Podemos cheirar e gostar as coisas, mas nem sempre somos capazes de desfrutar e saborear a vida…
Tocamos e abraçamos os outros, mas não nos comprometemos…

«Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.» Assim começa o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 9, 1-41) deste domingo.

Ele é cego de nascimento. Nem ele nem os seus pais têm qualquer culpa, mas o seu destino ficará marcado para sempre. Os discípulos de Jesus perguntam-lhe se o pecado é do cego ou dos seus pais. As pessoas olham-no como um pecador castigado por Deus.

Jesus é Aquele que vê o interior
Jesus olha aquele homem de forma diferente. Desde que o viu, só pensa em resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como pecador. Jesus sente o apelo de Deus para defender, acolher e curar precisamente os que vivem excluídos e humilhados.

Jesus é Aquele que faz ver a partir do interior
Mas a cura não acontece automaticamente. É trabalhosa. Jesus unge os olhos do cego com barro. O termo ungir faz alusão ao Espírito Santo, que transforma para sempre a vida daqueles em quem atua.

Por sua vez, o cego tem de aceitar a luz e optar livremente por ela. Jesus não lhe retira a liberdade: oferece-lhe uma oportunidade. A decisão de recuperar a vista está nas mãos do cego: terá de ir à piscina de Siloé por sua própria iniciativa, caminhar livremente, sair do seu lugar, lavar-se na piscina.

O cego de nascença vislumbra em Jesus um olhar encorajador, compreensivo, que acredita nele e lhe inspira confiança. Por isso, vai e faz o que lhe é pedido

E acontece a cura. O cego recebe a possibilidade de ver no sentido literal da palavra: ver as pessoas, ver ao seu redor. Mas descobre também pela primeira vez a luz, que o faz “ver” e acreditar em Jesus como o Filho do Homem.

Jesus é Aquele que tem a arte de fazer ver
O encontro com Jesus muda a vida do cego. Por fim pode desfrutar de uma vida digna, sem temer envergonhar-se diante de ninguém. E o mendigo curado torna-se missionário: confessa abertamente que foi Jesus quem o curou.

Todavia, como acontece com qualquer anunciador do Evangelho, o homem encontra oposição.
Então, Jesus procura o homem e pergunta-lhe se acredita no Messias. E quando lhe diz «Já O viste: é quem está a falar contigo», o mendigo declara: «Creio, Senhor».

Assim é Jesus. Ele vem sempre ao encontro daqueles que são marginalizados, pois têm um lugar privilegiado no Seu coração.

Não esqueçamos, pois, quando alguém é rejeitado, também pelos cristãos, esse alguém é sempre acolhido por Jesus.


E Jesus quer hoje curar a nossa cegueira, para podermos e captar o mistério das coisas e das pessoas. Porque «um olhar desprovido de sentimento, de imaginação, de profundidade, de horizontes... um olhar reprimido, desviado, insensível, frio, duro, ríspido... um olhar supérfluo, imediatista, narcisista, morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro... nesses olhares não há lugar para o acolhimento dos outros.» (P.e  Adroaldo Palaoro sj)

Comentários

  1. "Dificuldade de aceitar a luz quando ela ilumina o que não queremos ver".
    O Sr.nos leva mesmo a refletir com profundidade. Admiro demais sua originalidade. Que Deus o abençoe.

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