Valores humanos e cristãos na Quaresma: 16 - PERDÃO


A palavra «perdoar» deriva do latim per + donare. «Per» significa intensidade, aumento, totalidade ou a fundo. «Donare» é o mesmo que doar. Portanto, perdoar poderia ser traduzido não só como absolver, desculpar, mas também como «doar intensa e totalmente» a dívida. 

Ora, doar significa dar sem querer ou esperar algo em troca, ou seja, dar gratuitamente. Assim, perdoar pode também ser compreendido como «dar totalmente» a dívida a alguém. Não em parte, não pela metade, mas «a fundo», totalmente. Isso significa dizer que não existe meio perdão nem perdão que guarda mágoas. Porque se perdoo, ou seja, se dou totalmente a dívida, não me resta nada, não me sobra nada para que possa exigir depois ou usar como justificativa para acusar a outra parte. 

Quando perdoamos alguém, 
rasgamos totalmente a dívida que aquela pessoa tinha connosco. Não sobra nada. Não há espaço para afirmações como «Eu já te perdoei, mas não quero mais falar contigo!», ou «Eu já te pedi perdão, mas ainda acho que tu estavas errado!»
Mais do que um acto momentâneo e humano, o perdão é um modo de ser só ao alcance de Deus, tal como se deu a conhecer em Jesus Cristo: perdão total, definitivo e incondicional, para quem o queira acolher. Nós, cristãos, somos chamados a aprender de Deus este modo de ser e a praticá-lo, tanto quanto nos seja possível, dando testemunho da nossa condição de filhos de Deus, reconciliados pelo dom divino do perdão, concedido a toda a Humanidade em Jesus Cristo. É um serviço que prestamos ao mundo, em vistas da unidade e da reconciliação de todos os seres humanos entre si e com Deus.

Quando perdoamos, deixamos de estar emocionalmente aprisionados à pessoa que nos fez mal.

Abel Dias, em revista Audácia, janeiro de 2010


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