Valores humanos e cristãos na Quaresma: 2 - ESPERANÇA


Estamos a caminho, a passos largos, da Páscoa – a celebração central dos cristãos. 

Alguns andam já atarefados e preocupados com as amêndoas, os ovos, os chocolates, os coelhinhos e os folares. Ficarão assim pelo acessório e pelo superficial e sem penetrar no verdadeiro sentido da Páscoa? A Páscoa é, sobretudo, a festa da esperança. 

Na sua etimologia latina, «esperança» vem de spes e sperare, que significa uma «espera aberta, que não assenta em resultados externos (como a expectativa), mas sobre a realização da pessoa (uma mudança radical da condição humana)». 

A esperança é uma tendência para um bem futuro e possível. 
A esperança é uma energia interna, que cresce a cada momento 
e que nos torna capazes de derrubar muros e obstáculos 
que considerávamos intransponíveis.

A esperança projecta-se no futuro, uma vez que a pessoa que espera procura fundamentar e dar as razões dessa esperança e assume-se, consequentemente, não só como uma pessoa com um passado e um presente, mas, essencialmente, uma pessoa com um futuro. A vivência da esperança transmite paz e segurança ao dia de hoje e faz, assim, caminhar, sem medo, rumo a um horizonte futuro.

Para os cristãos, a esperança tem um nome e um rosto:
Jesus Cristo. 
É Ele a fonte e a razão da nossa esperança. É Ele que dá sentido e nos dá forças para nos empenharmos a lutar por um mundo mais humano e mais fraterno e é, igualmente, Ele que nos garante a Sua presença na nossa vida presente e futura. 

A certeza de que Jesus está vivo e presente na história da humanidade é o alicerce onde assenta a esperança cristã. Assim, a esperança cristã não é um antídoto para o desânimo ou uma pílula para a felicidade baseada numa ilusão construída ou numa utopia desejada, mas é, essencialmente, uma força, uma energia transformadora do presente, que nos envolve na construção de um futuro melhor para todos. Assim, a esperança é uma força transformadora do presente assegurando-lhe um futuro.

É costume ouvir dizer que «enquanto há vida há esperança». Acredito que o contrário também é verdade:
enquanto há esperança há vida. 
Se perdermos a esperança, 
viver torna-se um fardo pesado e sem sentido. 
A esperança qualifica e dignifica a vida.

Esta é a grande mensagem e definição da Páscoa: a certeza da ressurreição de Jesus. Esta é a certeza fundante e fundadora da nossa fé cristã. Celebrar a Páscoa é, sobretudo, celebrar a esperança. É proclamar bem alto que Jesus Cristo está vivo e presente na nossa vida e na vida do mundo. Que Ele caminha connosco, que nos anima, encoraja e nos desafia a estarmos também presentes no mundo e nas vidas dos nossos irmãos, para lhes levarmos uma palavra amiga de fé, esperança e caridade.

Abel Dias, em revista Audácia, março de 2008

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