Vivemos num tempo em que existe uma necessidade e sede de coerência. São muitas as pessoas e as situações que nos alertam para o défice de coerência na sociedade portuguesa. «Olha para aquilo que eu digo e não para aquilo que eu faço», é o perfeito exemplo da falta de coerência do mundo contemporâneo.
Vivemos, muitas vezes, ao sabor do fingimento, do faz-de-conta e da vontade de mentir, de esconder e de mascarar… Quantas vezes, também nós, não sentimos a tentação de sermos incoerentes: defendemos com unhas e dentes um determinado valor, mas damos por nós a praticar o correspondente contravalor!
A coerência não significa perfeição.
Coerência significa olhar com tranquilidade para o que somos
e o que fazemos,
e procurar não esconder nem mascarar,
de nós mesmos e dos outros, o que vemos.
Os latinos diziam: «Desculpar uma culpa é outra culpa.» Por isso, a tendência de justificar uma incoerência é ela própria uma incoerência. Esta tentação está muito presente nos nossos dias, argumentando que todos temos direito a enganar-nos e, assim, passamos uma vida constantemente a dançar no caos da incoerência.
Cada um de nós pode escolher viver de aparências,
de forma incoerente, ou viver coerentemente.
Ambas têm ganhos e perdas.
Quem vive de aparências, costuma seduzir mais rapidamente os outros, encontrar os melhores espaços, ganhar visibilidade, mas, a médio ou longo prazo, em geral, essa construção apresenta inconsistência e, consequentemente, é desprezada e desvalorizada pelas pessoas mais perspicazes e atentas.
Pelo contrário, a construção da coerência é uma tarefa mais trabalhosa, silenciosa e dá pouco nas vistas, mas, a longo prazo, é apreciada e valorizada pelas pessoas que nos rodeiam.
Todos cometemos o erro da incoerência ou da contradição em algum momento da nossa vida, mas nem por isso deixamos de valorizar a coerência em si.
A perda de qualquer valor e, em concreto, o da coerência,
dá-se quando, repetidas vezes, desvalorizamos o apreço e a vivência desse valor. Consequentemente, e com o tempo,
o valor tornar-se-á um contravalor.
Jesus Cristo foi não só modelo de coerência mas foi, Ele próprio, um homem coerente.
Foram muitas e variadas as ocasiões em que os fariseus O tentavam apanhar em situações de incoerência, mas Ele resistiu, não só a todas essas armadilhas, como incentivou e apelou à necessidade de sermos coerentes nos valores e nas ações. Resistiu, como ninguém, à tentação de escolher o caminho mais fácil e confortável, mas optou por uma postura e vivência coerente com os valores do Reino de Deus que veio anunciar. A coerência de Jesus levou-O à própria morte, pois, perante as dificuldades e ameaças, não renunciou aos valores mas assumiu-os até ao fim, mesmo que esse fim fosse a morte. Assim, Ele torna-se para todos nós, não só um homem coerente mas um modelo de coerência e de rectidão.
Abel Dias, em revista Audácia, dezembro de 2009

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