Vivemos num tempo em que são muitos os que tentam fugir, como
podem, às responsabilidades. Basta um rápido mas atento olhar para o mundo para
nos apercebermos da quantidade de irresponsabilidades cometidas e assumidas por
muitos de nós. Por vezes até parece existir um certo culto da
irresponsabilidade, do deixa andar, do quero lá saber…
Acaso sou responsável pelo meu irmão?
Diz-se no capítulo 4 do Génesis – primeiro livro da Bíblia –
que Deus preferiu as oferendas de Abel às de Caim. Caim ficou cheio de ódio
contra Abel e «lançou-se sobre seu irmão, matando-o». Deus disse a Caim: «Onde
está o teu irmão Abel?» Ele respondeu: «Não sei. Acaso sou eu responsável pelo
meu irmão?» (Gn 4, 8-9).
Caim recusa-se a ser responsável pelo irmão e a assumir a
responsabilidade que cada pessoa tem pela outra. Esta é a tendência, tão
presente no mundo de hoje, de omitir a responsabilidade de cada um pelo seu
semelhante. Sintomas desta tendência são a falta de solidariedade com os
membros mais débeis da sociedade, como são os idosos, os doentes, os
imigrantes, as crianças e a indiferença que tantas vezes se regista nas
relações entre os povos e nações.
Diante do outro, humano como eu, e, no
entanto, totalmente diferente de mim, sou, em primeiro lugar, responsável:
responsável não apenas por aquilo que lhe faço ou deixo de fazer, mas sobretudo
responsável por ele, pelo que ele sofre, pela sua miséria. Diante do outro, sou
chamado, sou «pro-vocado» (ao jeito de uma vocação) e, deste modo, sou posto em
causa, no meu projecto de sujeito livre e autónomo.
Sim, sou responsável pelo meu irmão, pessoa e/ou Natureza
Caim pergunta: «Serei eu responsável pelo meu irmão?» A
resposta é: Sim! Sou responsável, com uma responsabilidade só minha, na qual
ninguém pode substituir-me, pois sou eu que estou diante do outro e mais
ninguém. Ninguém me pode substituir e todos somos insubstituíveis... Ser
responsável é aderir a um estilo de vida que implica a passagem da indiferença
ao interesse pelo outro, a passagem da recusa ao seu acolhimento. Os outros não
são concorrentes de quem temos de nos defender, mas irmãos e irmãs de quem
devemos ser solidários.
O dicionário de Língua Portuguesa define «responsabilidade»
como «obrigação de responder pelas ações próprias, pelas dos outros ou pelas
coisas confiadas».
Seria desejável que, a partir de agora, não
vivêssemos mais ao lado uns dos outros, em comunidades distintas e
impenetráveis, mas lado a lado, em comunidades que se entreajudam. Face aos
inúmeros problemas e às crescentes desigualdades, não podemos fugir, com frases
egoístas e irresponsáveis, dizendo «que não queremos saber», ou «que tanto nos
faz», ou «que tanto se me dá como se me deu», que «ninguém tem nada a ver»....
Pelo contrário, devemos assumir a nossa condição de seres-em-relação que são
eternamente responsáveis e comprometidos com o bem-estar. É necessário e
urgente comprometermo-nos com mossa vida e a vida dos outros, sendo assim co-responsáveis pelos nossos irmãos,
companheiros de viagem e co-herdeiros da felicidade e alegria que nos é
prometida por Deus.
A minha relação com o outro é uma forma de relação no mundo e só nele é
possível. Por essa razão, da responsabilidade pelo outro faz parte integrante a
responsabilidade pela Natureza e pelo meio ambiente.
Abel Dias, em revista Audácia, junho de 2009

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