Valores humanos e cristãos na Quaresma: 3 - VERDADE


Não tem sido fácil a convivência das pessoas com a verdade. Muitas vezes houve mesmo uma relação ambígua e tumultuosa com ela. Em nome da razão, muitos foram os atentados cometidos e os atropelos praticados.

Hoje vivemos um tempo onde damos muita importância à verdade, mas, por outro lado, facilmente verificamos um certo (e penoso) ofuscamento dela. Às vezes, as pessoas mentem descaradamente mas juram a pés juntos que estão a ser sinceros.

A verdade, por vezes, é manipulada ao sabor das vontades e conveniências. Este comportamento, de falta de honestidade, ou manipulação da verdade, invade os mais recônditos lugares da esfera do individual, social e institucional. Certas atitudes e comportamentos, assumidos em nome da verdade, levam muitas vezes a desacreditá-la ou a relativizá-la.

Há também quem, recorrendo a processos refinados, 
continue a alimentar a pretensão de possuir toda a verdade. 
Aliás, esta parece ser uma tendência comum em algumas correntes do pensamento contemporâneo. Trata‑se da tendência da pessoa para “possuir verdades” em vez de se deixar possuir pela verdade. De facto, a impressão que prevalece é a de que a verdade tem muitos possuidores e poucos buscadores (servidores).

Nesta busca pela verdade, umas vezes falsa, outras vezes autêntica, é necessário clarificar os métodos e os princípios e ter sempre em mente a convicção de base, correctamente enunciada pelo Concílio Vaticano II: «A verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte», afirmou o Vaticano II, na declaração Dignitatis humanae, sobre a liberdade religiosa.

Uma verdade que ofendesse, que excluísse e que humilhasse 
seria tudo menos verdade;
não passaria de uma contradição, de uma humilhação.

Nunca percamos de vista que a verdade tem como (supremo) objectivo edificar a pessoa humana no seu todo, contribuindo para a revelação da dignidade que ela encerra. Por essa razão, a verdade comporta uma dimensão itinerante: ela é de sempre, mas pode ser descoberta – ou reconhecida – apenas num momento tardio ou até no momento terminal da existência. 

Para os cristãos a verdade habita em Jesus Cristo. 
Ele é a “casa da verdade” onde cada um se pode hospedar e aí recuperar forças para o testemunho que o mundo nos exige.

Deixa-te conduzir pela verdade. Procura ser, no ambiente onde vives, família, escola, paróquia, sociedade, um buscador e facilitador da verdade. Procura, em tudo o que fazes, colocar a verdade como prioridade e meta. Deixa que ela seja o valor que marca a tua vida. Lembra-te que nas montanhas da verdade nunca se faz uma escalada inútil.

Abel Dias, em revista Audácia, maio de 2008

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