Estamos na Quaresma, tempo de reflexão e de preparação, em
que os cristãos, através da oração, da caridade e da penitência, se preparam
para celebrarem e acolherem Cristo ressuscitado nas suas vidas. Ela deve ser um
tempo de esperança e de entusiasmo, pois preparamo-nos para acolher a mudança
positiva que a Páscoa (passagem) pode fazer na nossa vida, como fez na vida de
Cristo. É precisamente sobre o valor do entusiasmo que quero reflectir contigo
este mês.
A palavra entusiasmo vem do grego, a partir da junção de
três palavras: «en», «theos» e «asm». «Theos» é Deus, «en» é um prefixo que
significa dentro e «asm» designa em acção. Portanto , literalmente, entusiasmo
significa Deus dentro de nós em acção.
Assim, o significado para «entusiasmo» era o de exaltação ou
arrebatamento extraordinário daqueles que estavam sob inspiração divina. Para
os Gregos (que eram politeístas), a pessoa entusiasmada era aquela que estava
possuída por um dos deuses, e, por causa disso, poderia transformar a natureza
e fazer coisas extraordinárias. Quando é Deus que inspira as nossas acções, só
podemos esperar coisas boas e positivas.
Vivemos num tempo em que existe um crescente défice de
entusiasmo. Mas acontece que não podemos viver sem ele, sem essa força vital
que nos faz levantar cada manhã, que nos faz sonhar, que nos faz lutar, que nos
dá forças para vivermos certos valores, mesmo em contradição com a realidade, e
que dá brilho à nossa vida. No dia em que perdermos o entusiasmo, começamos a
morrer lentamente, a desvitalizarmo-nos.
O entusiasmo é o sinal da presença de Deus dentro de nós, da
chama interior que nunca se apaga.
Viver entusiasticamente é viver intensamente. Se
compreendêssemos o quanto representa para a felicidade o estado de espírito
impregnado de entusiasmo, certamente nunca deixaríamos de buscar possuí-lo. Não
basta crer, não basta amar, é preciso que o façamos entusiasticamente, com o
uso de toda a energia que nos foi dada e concedida para ser utilizada em nosso
favor e em favor das outras pessoas.
O vulcão do entusiasmo
Deixo-te uma história, adaptada de António Ramalho:
«Caminhavam, calmamente, um mestre e o seu discípulo, quando
por eles passavam várias pessoas naturalmente entusiasmadas.
– Vamos ao vulcão – diziam elas. E continuavam a caminhar em
passo acelerado.
Lá ao longe, avistava-se um vulcão: o vulcão do entusiasmo.
Lavas e lavas de entusiasmo! Lavas de algo que motivava as pessoas, que as
entusiasmava ao ponto de criar uma energia revigorante.
As pessoas sentiam-se vivas quando absorviam as lavas do
entusiasmo; sentiam crescer dentro delas uma energia que as ajudava a vencer
todos os obstáculos. O entusiasmo é o alimento para a persistência. A
persistência é um passo essencial para a caminhada, mas o entusiasmo é a energia
necessária para encher esse depósito da persistência na mochila. E para a
caminhada, a mochila que transportamos tem de estar cheia de força de vontade e
persistência. Quem transporta pouca força de vontade e pouca persistência terá
imensas dificuldades para vencer os obstáculos com os quais deparamos ao longo
da caminhada.
– Que lava tão excitante, Mestre! Apetece-me encher
totalmente a mochila, pois é uma energia necessária para a sobrevivência neste
mundo competitivo! Mas não é fácil vir ao vulcão do entusiasmo, pois não,
Mestre?
– É necessário desejar. O desejo é o meio de transporte do
entusiasmo. Só desejando se consegue ultrapassar o mar das dificuldades. Muitas
pessoas gostariam de vir ao vulcão do entusiasmo, mas não encontram o barco do
desejo.
– Só nele se navega neste mar de dificuldades. Todos os
outros barcos naufragam.
– E voltaremos a encontrar o vulcão do entusiasmo?
– Claro que sim. Ao longo do nosso caminho encontraremos
frequentemente este vulcão, para recarregar a mochila de energia. Em todos os
projectos, o mais importante é termos entusiasmo. É a energia para continuarmos
a caminhar.
Abel Dias, em revista Audácia, março de 2009

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