A cruz de Jesus e a nossa autoestima


Um dos grandes contributos do Cristianismo é a valorização da pessoa. Deus ama-nos a cada um a tal ponto que envia o seu Filho para nos ensinar como viver e como morrer, bastando-lhe uma frase: «Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há de salvá-la» (Mc 8, 34-36).

Em Jesus e por meio Dele, Deus trata-nos como filhos e filhas muito amados, porque Ele é Amor.
Jesus passou pela terra a fazer o bem. O Amor só pode querer o bem. Nos Evangelhos, são muitas as passagens que narram a constante bondade de Jesus. Era o Seu modo de atrair as pessoas para o “colo” de Deus seu e nosso Pai: «Uma grande multidão foi ter com Jesus, ao ouvir dizer o que Ele fazia» (Mc 3, 10).

No perdão concedido, nas curas, nos milagres, nas parábolas e outros ensinamentos, Jesus leva-nos a reconhecer que ninguém nos ama e valoriza mais do que Deus.
Esta verdade, além de nos salvar do instinto de mentir, enganar, sobrepor-nos aos outros, guerrear, explorar o próximo, procurar o nosso prazer antes de tudo o maus, faz sentir bem, dar valor a nós mesmos e a reconhecer o valor e dignidade dos outros. A partir daqui, concluiremos que ninguém se interessa mais pelo nosso bem estar, felicidade e realização do que Deus.

O amor é um dom. Aprendemos a amar porque fomos amados primeiro. Todo o amor tem sua fonte e origem em Deus.
Portanto, um elemento fundamental na compreensão cristã da autoestima é o lugar que a cruz ocupa na realização de Cristo. Os seus últimos sentimentos são que tudo estava consumado, cumprido: «Jesus disse: “Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito» (Jo 19, 30).

Quando Jesus Cristo morre na cruz, conclui-se a maior obra já iniciada nesta terra. Todavia, foi uma obra tão infinitamente grande quanto difícil. Jesus angustiou-se antes mesmo de a começar. «Tenho de receber um batismo, e que angústias as minhas até que ele se realize» (Lc 12, 50). «Agora a minha alma está perturbada. E que hei de Eu dizer? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente para esta hora é que Eu vim!» (Jo 12, 27).

A partir da cruz de Jesus, então, entendemos que ela nos coloca diante de Deus, olhando-a, reconhecemos o nosso valor diante de Deus e percebemos a dimensão infinitamente grande quanto difícil de qualquer doação por amor até ao extremo de dar a vida.
A cruz revela as qualidades do amor, enquanto aceitação, entrega, perdão, resgate de mim mesmo e do próximo. Sobretudo, a cruz diz que a autoestima é negação dos egoísmos e autossuficiências. Neste contexto, a autoestima não deve ser baseada naquilo que pensamos a nosso respeito, nem naquilo que os outros pensam sobre nós, mas no que Deus pensa através da doação total de Cristo na cruz por nós.

O profeta Isaías percebeu isso, e a nós choca-nos a sua descrição do Cristo:
«Vimo-lo sem aspeto atraente,
desprezado e abandonado pelos homens,
como alguém cheio de dores,
habituado ao sofrimento,
diante do qual se tapa o rosto,
menosprezado e desconsiderado.
Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças,
carregou as nossas dores.
Nós o reputávamos como um leproso,
ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por causa dos nossos crimes,
esmagado por causa das nossas iniquidades.
O castigo que nos salva caiu sobre ele,
fomos curados pelas suas chagas.
Todos nós andávamos desgarrados
como ovelhas perdidas,
cada um seguindo o seu caminho.
Mas o SENHOR carregou sobre ele todos os nossos crimes.
Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca,
como um cordeiro que é levado ao matadouro,
ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador.
Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força.
Quem é que se preocupou com o seu destino?
Foi suprimido da terra dos vivos,
mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido.
Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios,
e uma tumba entre os malfeitores,
embora não tenha cometido crime algum,
nem praticado qualquer fraude.
Mas aprouve ao SENHOR esmagá-lo com sofrimento,
para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação.
Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias,
e o desígnio do SENHOR realizar-se-á por meio dele.
Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz.
O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve.
Ele, o justo, justificará a muitos,
porque carregou com o crime deles.
Por isso, ser-lhe-á dada uma multidão como herança,
Há de receber muita gente como despojos,
porque ele próprio entregou a sua vida à morte,
e foi contado entre os pecadores,
tomando sobre si os pecados de muitos,
e sofreu pelos culpados» (Is 53).


Ou seja, o valor que Jesus tinha de si mesmo não foi determinado pela cultura do seu tempo, nem pela falta de reconhecimento ou pelas falsas expectativas que as pessoas tinham Dele. O seu valor pessoal estava sustentado pelo amor com que era amado pelo Pai e expressava-se no amor ao próximo.

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