A primeira testemunha
da Páscoa é Maria Madalena (João 20, 11-18). A paixão pelo Mestre manteve o seu
coração desperto na noite da grande “Passagem”.
«Eu durmo, mas o meu
coração vela», diz a amada no livro Cântico dos Cânticos (Ct 5, 2). E porque o
amor a fez madrugar, o Amado mostrou-se a ela em primeiro lugar.
É a ela que vamos
pedir: Diz-nos, Maria: o que viste?
«Vi Rabbuni!» - que quer dizer «Mestre» -
que me disse: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: “Subo para o meu Pai, que
é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.”»
O que caracteriza
Maria Madalena?
Um grande amor! É uma mulher apaixonada pela causa de Jesus
Cristo.
A vocação de Maria
Madalena é animada pelo amor, mas também pela fé.
Fé e amor são ambos
necessários: a fé dá pernas para andar, o amor dá asas para voar.
A fé sem o
amor não arrisca, mas o amor sem fé pode perder-se nas muitas encruzilhadas.
E
a esperança é filha de ambas.
É o amor e a fé que levam Maria Madalena a ficar
junto do sepulcro, a chorar e a esperar embora não saiba bem o quê.
Ao contrário dos dois
apóstolos, Pedro (figura da fé) e João (figura do amor), que se afastam do
Sepulcro. A Mulher, que reúne em si ambas as dimensões, «fica» e «chora». O seu
«ficar» vem da fé, o seu «chorar» do amor. «Fica» porque a fé persevera na
busca, não desanima diante do insucesso, interroga (os anjos e o jardineiro),
como a Amada do Cântico dos Cânticos. Espera contra toda a esperança! Até que,
encontrado o Amado, o amor a lança aos Seus pés, abraçando-os na vã tentativa
de não mais O deixar partir (Cântico 3, 1-4).
Hoje, fugimos do sepulcro
Hoje nós, apóstolos e
amigos de Jesus, pelo contrário, capitulamos facilmente diante do «sepulcro».
Fugimos dele! Falta-nos a fé para esperar que das situações de morte, de vazio,
de fracasso possa renascer a vida. Já não temos fé em «milagres». Não há espaço
em nós para esperar num Deus capaz de «ressuscitar os mortos». Apressamo-nos a
fechar esses «sepulcros» com a «pedra muito grande» (Marcos 16, 4) da nossa
incredulidade. A nossa missão torna-se uma «desesperada» luta contra a morte.
Empresa condenada ao fracasso porque a morte reina desde o princípio do mundo.
Acabamos então por dedicar-nos à «obra de misericórdia» de «enterrar os mortos»
(com ou sem a atenção especial de «embalsamá-los»), esquecendo que fomos
enviados para os «ressuscitar» (Mateus 10, 8). Afrontar o «sepulcro» é o
Rubicão do Apóstolo, a sua passagem do mar Vermelho (Êxodo 14-15). Sem remover
a pedra da nossa incredulidade para afrontar e vencer tão temível inimigo, não
veremos a Glória de Deus: «Não te disse que, se creres, verás a glória de
Deus?» (João 11, 40).
Hoje, temos dificuldade em chorar
Temos dificuldade
também em «chorar», sem dúvida porque amamos pouco. «Chorar faz parte do génio
feminino», disse o Papa São João Paulo II.
O coração da Madalena está
naquele jardim, e por isso chora. O nosso esquece facilmente os seus «mortos».
Preocupado com «tantas coisas» para fazer, não tem tempo para «ficar» e
«chorar» com os que sofrem! Se a nossa oração não conhece momentos de «clamor e
lágrimas» (Hebreus 5, 7) haveria que interrogar-se se não estaremos a ser
corroídos pela indiferença. Pouco a pouco o coração se atrofia, alienando-se na
acção, incapaz de «compaixão».
A audácia de «ficar» e
de «chorar» não é estéril
As lágrimas de Maria convocam os anjos. São a
resposta de Deus. Não lhe restituem o «cadáver» que ela pede e procura, mas
anunciam-lhe, pelo contrário, que «Aquele que o seu coração ama» está vivo!
Mas
esse coração tem necessidade de «ver» e «tocar» o Amado. E Jesus cede,
finalmente, à insistência do coração. Vai ao encontro de Maria Madalena. Quando
a chama por nome: «Mariam», é então que o coração dela estremece de emoção, ao
reconhecer a voz do Mestre.
Ser chamados pelo nosso nome: eis o desejo mais
profundo (inconfessado) que levamos em nós. Só então a «pessoa» alcançará a
plenitude do seu ser e a consciência da sua identidade. Até lá andará às
apalpadelas! Só então poderá dizer com o fogo de um coração enamorado: «Vi o
Senhor!»
E naquele dia, como Maria, tornar-nos-emos testemunhas de primeira
mão: «O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos
olhos, o que contemplamos, e nossas mãos apalparam… o que vimos e ouvimos vo-lo
anunciamos!” (1 João 1, 1-4).
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