Jorge Mário Bergoglio, eleito papa, não anulou as características da sua personalidade nem dos seus princípios: continua a comportar-se como um cidadão comum, dá
imenso valor às relações humanas. e pratica ativamente a tolerância com
aqueles que discordam dele.
O seu exemplo de humildade e dedicação aos que sofrem, associado ao
desprezo por luxo, conforto e privilégio, constitui uma espécie de repreensão
silenciosa aos arrogantes que, no poder, agem como se tivessem direito a tudo.
Estas dez lições de vida do Papa Francisco são capazes de inspirar os que estiverem
prontos a ouvi-lo e a ver o que ele faz.
1. VIAJAR LEVES PELA VIDA
Evangelina Himitiam, a biógrafa do papa, diz, com certo
exagero, que tudo o que ele tem na vida cabe numa mala. São discos, livros, um
poster de seu clube do coração – o San Lorenzo, de Buenos Aires –, um crucifixo
que ganhou dos avós, uma imagem de S. José a dormir.
Francisco é desapegado, e isso lhe permite, nas palavras
dela, «viajar leve pela vida». Anda a pé, utiliza transportes públicos e, quando
cardeal, não tinha carro oficial nem motorista. Este voto de pobreza, diz o
teólogo Altmayer, não é algo triste, pelo contrário. “Quem tem pouco é mais
livre, mais feliz”, diz. Talvez essa fórmula não valha para todos. Mas ela pode
nos ajudar a repensar o materialismo exagerado dos nossos tempos.
2. DAR IMPORTÂNCIA AOS VALORES
Ele começou a trabalhar aos 12 anos, porque o pai
considerava o trabalho essencial. Música e literatura
também são paixões precoces que ele cultiva até hoje, como elemento essencial
da existência. Da ética religiosa dos jesuítas, a ordem religiosa a que
Francisco pertence, extraiu a decisão de levar uma vida modesta, dedicada aos
necessitados. Ele acredita que ajudar os pobres enriquece objetivamente a vida
das pessoas. Ao longo da vida, somos capazes de guardar coisas mais
valiosas que os nossos bens.
3. CULTIVAR AS RELAÇÕES PESSOAIS
Perguntaram certa vez ao bispo Jorge Bergoglio, futuro papa
Francisco, o que ele salvaria em caso de incêndio. Sem hesitar, respondeu “a agenda e o breviário”. No breviário, organizava as obrigações
como sacerdote. A agenda continha o seu bem mais precioso, os dados de centenas
de pessoas com quem ele se relacionava, de preferência pessoalmente.
A vida do
homem que viria a ser papa é marcada por uma relação intensa e generosa com
todos a seu redor. Isso fez com que ele deixasse marcas na vida de milhares de
pessoas. Quando anunciou que seria padre, aos 19 anos, três amigas choraram,
antecipando sua ausência do bairro e da turma. Uma mãe que perdeu a filha de 24
anos num acidente se lembra do e-mail, totalmente inesperado, que recebeu do
cardeal Bergoglio. Um operário se lembra com orgulho de que ele se sentou a sua
mesa para comer com sua família. Na agenda de Francisco há artistas,
militantes, políticos, sindicalistas e empresários, assim como catadores de
papel e imigrantes ilegais. A mensagem da vida voltada para os outros é que é
possível, talvez necessário, envolver-se com aqueles que estão a nosso redor.
Sair da zona de conforto da família e participar da vida de mais gente – e
convidá-las a fazer parte de nossa vida.
4. FREQUENTAR A RUA
Nos primeiros dias depois do conclave, Francisco afirmou que
não deixaria a rua. “Sem isso, sou um rato de sacristia”, afirmou. A frase
reafirma uma prática que ele iniciou ainda antes de se tornar padre. Seus
amigos de adolescência contam que, aos 17 anos, já perambulava pelo bairro onde
morava, visitando áreas mais pobres.
Francisco nunca deixou de andar a pé. “O facto de não usar carro permitia criar
mais laços com a comunidade e aperceber-se de questões que de outra forma não
veria”, diz Evangelina. Nas palavras do próprio papa, “andar pela rua e
misturar-se ao povo esclarece e humaniza”.
5. SER COMUM E EXTRAORDINÁRIO
Desde muito jovem, ele esteve inserido nos grupos em que participava como uma pessoa comum. Jogava
bola, dançava, convivia com os amigos. “Ele ia bem na escola, mas não me lembro
dele como um menino extraordinário, e sim como parte da turma”, afirma Ernesto
Lach, um colega de classe. O seu segredo, ao longo de toda a vida, foi a inserção
– na família, na escola, no grupo de amigos, na igreja.
Francisco nunca teve medo de
ser mais um, de misturar-se. Na nossa época de individualidade exaltada, em que cada um é
estimulado a ser excepcional, único e insubstituível, é reconfortante perceber
que o homem que chegou ao posto religioso mais importante do mundo nunca fez
questão de parecer diferente daqueles que o cercavam – e nisso, talvez, resida a sua imensa originalidade.
6. CULTIVAR A DIFERENÇA
A história de Francisco está repleta de exemplos de
abertura ao diálogo com pessoas e
instituições com valores diferentes dos seus.
7. VALORIZAR A FAMÍLIA
Primeiro de cinco filhos, Francisco foi criado com austeridade.
O pai, imigrante italiano, era contador, exigente com escola e trabalho. A mãe,
também italiana, cultivava o espírito de colaboração entre os irmãos.
Incentivava a apreciação de música e literatura. O
pequeno Jorge passava muito tempo na casa da avó, de quem assimilou a
religiosidade. Pouco antes de ser
eleito papa, deu uma entrevista, e nela afirmou que essa avó, Rosa Maria
Vasallo, era a pessoa que mais influenciara sua vida. Quando ele contou a ela
que iria para o seminário, a avó respondeu: “Vá, mas se não for feliz saiba que
a porta aqui está aberta.”
Hoje em dia, quando o convívio familiar reduz a
poucas e atribuladas horas, e as crianças muitas vezes mal conhecem seus avós,
talvez faça sentido lembrar que o papa descobriu a sua vocação e construiu a sua
personalidade à sombra de uma família ampla e presente, embora pobre.
8. NÃO TER VERGONHA DE SER HUMILDE
Assim que se instalou em Roma como papa, o ex-cardeal
Bergoglio disparou uma série de telefonemas para Buenos Aires. Falou com o
jornaleiro, o dentista e os funcionários da igreja. Quando gaguejavam sem saber
como tratá-lo, respondia: “Me chame de Jorge, como sempre”. Fez o mesmo na
Cúria Romana. Em vez de Sua Santidade, pediu para ser tratado como bispo de
Roma. Isso criou uma enorme simpatia e boa vontade em torno dele.
9. RECONHECER OS PRÓPRIOS DEFEITOS
Durante uma missa na Praça de São Pedro,
Francisco fez um comentário surpreendente: “Todo mundo peca, inclusive o papa –
e muito”. Ao falar publicamente de suas fraquezas, o papa nos sugere que
sejamos mais honestos e mais compreensivos, com nós mesmos e com os outros.
10. CUIDAR DOS AMIGOS
“Quando éramos crianças, Jorge nunca foi o líder do grupo.
Mas sempre teve muitos amigos”, diz sua irmã Maria Helena. “A amizade é uma grande dádiva de Deus”, disse ele,
em carta a jovens de um seminário argentino. “Com ela, podemos conhecer o amor
da diferença, sem barreiras, da ternura permanente. Deus não é mesmo
maravilhoso?” Para o papa Francisco, a amizade é uma relação transformadora, que requer atenção e doação. Não é
apenas uma forma de entretenimento.

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