O
Ano Jubilar do Centenário das Aparições em Fátima convida-nos a aprofundar o
essencial da mensagem de Fátima – o chamado evangélico à conversão – e a assumir
com responsabilidade a nossa vocação de discípulos missionários, abraçando o
mundo inteiro com o coração.
Ir. Gertrudes Ferreira, Irmãs Reparadoras
de Nossa Senhora de Fátima, Além-Mar, maio de 2017
O
centenário das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria, que tem o seu ápice
no 13 de Maio de 2017, impele-nos a entrar em profundidade no cerne da mensagem
que Nossa Senhora veio trazer a Portugal e ao mundo, por intermédio de três
crianças simples e inocentes e a acolhermos o seu significado para os dias de hoje.
Como expressa o boletim Apóstolo de
Fátima: «Há cem anos, no planalto agreste da serra de Aire implantou-se um
pedaço de céu. Os tempos, na Europa e em Portugal, eram difíceis e adversos. Em
seis aparições, a Virgem Maria falou com três pequenos pastores e confiou-lhes
uma mensagem. A partir de então, Lúcia, Francisco e Jacinta, sem terem
consciência disso, tornaram-se veículo de uma missão sobrenatural para todo o
mundo.»
Os
pastorinhos, efectivamente, assumiram com alegria a sua vocação evangelizadora:
com a palavra, a oração, o sacrifício, a entrega da própria vida a Deus. E a causa
missionária continua a ser a causa fundamental para os cristãos nos dias de
hoje, pois como frisavam os bispos portugueses na Carta Pastoral de 2010, «a
proclamação da Boa Nova a todos os povos e em todas as culturas continua a ser
o melhor serviço que a Igreja pode prestar às pessoas» (Para um rosto missionário da Igreja em Portugal, 9).
Os
papas, peregrinos de Fátima, desde São João Paulo II, Bento XVI e o actual Papa
Francisco, sempre têm afirmado, não apenas com palavras, mas com actos
concretos, que a mensagem de Fátima é actual e necessária para os nossos
tempos. São João Paulo II recordava-nos que a «mensagem de Fátima é destinada
de modo particular aos homens do nosso século, marcado pelas guerras, pelo
ódio, pela violação dos direitos fundamentais do homem, pelo enorme sofrimento
de homens e nações e, por fim, pela luta contra Deus, impelida até à negação da
sua existência». Por isso é que a mensagem de Fátima continua profundamente
actual.
A mensagem é interpelação
para o mundo inteiro
Na
primeira aparição, a 13 de Maio de 1917, Nossa Senhora perguntou às três
crianças: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que
Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é
ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?» A resposta foi pronta:
«Sim, queremos», disseram. «Ides, pois, ter muito que sofrer», disse-lhes Nossa
Senhora. E ainda disse mais: «Rezem o terço todos os dias para alcançar a paz
para o mundo.» A paz no mundo parece estar condicionada à oração. É preciso
pedir a paz: paz para o mundo, paz para os corações, paz para as famílias, para
a sociedade em geral. Em cada uma das seis aparições, Nossa Senhora pediu
insistentemente oração, conversão do coração, aceitação de Deus na nossa vida.
Onde está Deus não existe o ódio, nem a violência, nem a guerra, porque Deus é
amor.
Os
pastorinhos foram respondendo desde logo a estes apelos, com oração, com
sacrifícios e com a entrega total das suas vidas. Não se cansavam de repetir a
oração ensinada pelo Anjo no ano anterior ao das aparições de Nossa Senhora, e
que os preparou para as mesmas: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos:
peço-vos perdão para os que não crêem não adoram, não esperam e não Vos amam.»
Eles perceberam que a sua vida era essencialmente uma vida de entrega pelos
outros, principalmente pelos pecadores e assumiram essa missão com
responsabilidade. Como diria mais tarde a Ir. Lúcia, «não podiam ir felizes
para o céu sozinhos, não podiam ser felizes sem os outros» (Como Vejo a Mensagem, p. 32).
A
mensagem de Fátima é essencialmente um dom inefável de graça, de misericórdia,
de esperança e de paz, que nos impele ao acolhimento e ao compromisso, à
semelhança das três crianças (Cf. Fátima,
sinal de esperança para o nosso tempo, 6-7). Ainda hoje, diz o Papa
Francisco, «quando vivemos, uma terceira guerra combatida em episódios, a
mensagem da Senhora de Fátima agita as nossas consciências para reconhecermos a
tarefa desta hora histórica: a tarefa de não nos deixarmos cair na indiferença
diante de tanto sofrimento; de respeitarmos a memória das tantas vítimas
inocentes; de não deixarmos que o nosso coração se torne insensível ao mal
tantas vezes banalizado».
A irradiação de
Fátima pelo mundo
Ao
longo de todos estes anos, as peregrinações a Fátima têm sido ocasião para
vivências espirituais profundas de louvor e gratidão a Deus e têm contribuído
para a revitalização da fé de muitos crentes, para a conversão de muitos
corações e para a renovação da vida cristã, não só em Portugal, mas no mundo. Desde
1947, a imagem de Nossa Senhora de Fátima fez-se peregrina, percorrendo
numerosos países como mensageira da paz e da reconciliação. A sua presença, em
qualquer parte do mundo, é sempre acolhida com enorme entusiasmo e por onde
passa deixa a sua marca indefectível nos corações, que se abrem à graça da
influência materna de Maria, que outra coisa não deseja que conduzir os seus
filhos para Deus. O servo de Deus P.e Formigão, apóstolo de Fátima,
assim descreve a fé e o entusiasmo com que a Mãe de Deus é acolhida: “Por entre
as multidões, que acorrem para a saudar e bendizer, a Virgem passa, como uma
visão do Paraíso, espalhando profusamente bênçãos e graças. E as multidões,
enternecidas, prostram-se a seus pés, bendizendo-a e saudando-a como sua Rainha
e Mãe” (P.e Manuel Formigão, Pensamentos,
p. 74).
A
mensagem de Fátima é, essencialmente, um veemente apelo à conversão e à
penitência. O pedido repetido para que os homens não ofendam mais a Deus, a
tristeza de Nossa Senhora perante os pecados cometidos, o convite à oração e ao
sacrifício pelos pecadores, tudo indica o objectivo primeiro e único da
mensagem: a regeneração de todos os homens, e a instauração da paz e da
concórdia no mundo, para que todos os homens vivam em doce harmonia, segundo os
planos do Criador.
Fátima
ergue-se como palavra profética de denúncia do mal e compromisso para o bem, promovendo
a justiça e a paz, valorizando o respeito e a dignidade de cada ser humano.
Neste 13 de Maio, com a presença do papa, é toda a Igreja que, sob o olhar de
Maria, se compromete e empenha na luta pela instauração do reinado de Cristo no
mundo.
O centenário não é um simples festejo, mas sim o
renovar de uma missão, a missão que Nossa Senhora confia aos pastorinhos
de 2017: tudo fazer para que as forças do mal sejam detidas e continuem a
crescer as forças do bem. É essa a missão que recebemos dos 100 anos de Fátima: herdeiros e
seguidores dos pastorinhos. Com eles, seremos missionários da paz e comprometemo-nos
na corrente mundial de oração e gestos pela paz que o Papa Francisco nos propõe.
Existe uma geração cheia de força, esperança e
caridade que se quer comprometer com Nossa Senhora pela Paz. Esse será o testemunho dos
pastorinhos do século xxi e a
marca de Deus no meio da vida das aldeias e das cidades que tantas vezes não
encontram sentido no dia-a-dia.
Os cristãos, fiéis à mensagem de Fátima, não querem
mais virar costas à guerra, ao sofrimento dos outros e à miséria. Querem sentir-se
solidários com os irmãos que sofrem, fogem, gritam. Não vão cruzar os braços e
descartar a sua responsabilidade pelos pobres, nem fechar os olhos aos
desorientados que precisam de Jesus e de Maria, para dar sentido e paz aos seus
corações. Não querem ignorar a tristeza que os rodeia.
Os “pastorinhos” de 2017 recebem a missão de vencer a
indiferença num abraço ao mundo inteiro. «Por fim, o meu Imaculado Coração
triunfará», disse Nossa Senhora (Memórias
da Ir. Lúcia, vol. I, p. 177). Assim, a mensagem de Fátima converte-se num
hino de esperança. Citando Bento XVI: «A mensagem de Fátima, condensada na
promessa da Senhora, é como uma janela de esperança que Deus abre quando o
homem lhe fecha a porta» (Discurso em Portugal, 11 de Maio de 2010).

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