«A teologia do Papa Francisco é, sobretudo, a do seguimento de Jesus», dis teólogo espanhol José María Castillo
Uma mulher, que já
completou 92 anos, disse-se uma das coisas que mais me impressionaram na minha
vida: «A coisa que mais distingue o Papa
Francisco de todos os papas anteriores é a sensibilidade que ele tem para
sintonizar com os últimos deste mundo.»
Esta afirmação fez-me pensar muito. Porque afirma que a
melhor coisa que qualquer pessoa tem não é o que ela sabe, o que ela disse ou o
que ela tem, mas a qualidade da sua sensibilidade. Uma qualidade que se mede
pelas coisas com que ela sintoniza. É evidente que sintonizar com os sábios e
com os poderosos, com os ricos e com os governantes, com os famosos e os
importantes, tudo isso é vulgar. Porque todos, ou quase todos, temos isso. Mas ter uma
sensibilidade que sintoniza com aqueles que ninguém sintoniza, isso é chamativo,
pouco frequente, anormal e verdadeiramente extraordinário.
José María Castillo, Religión Digital, 27.05.2017.
Tradução: André Langer, Unisinos
Para compreender a profundidade desta reflexão tão simples
que acabo de fazer é necessário dar-se conta de que “sinal” e “símbolo” não são
a mesma coisa. O “sinal” comunica “conhecimentos”. É o que fazemos mediante os
sinais fonéticos (por exemplo, as palavras) ou com os sinais visuais (por
exemplo, os sinais de trânsito...). O “símbolo” transmite “experiências”
(carinho, ódio, medo, indiferença, paz, ansiedade...). Por isso, o “olhar”
precede o “olho”. Um olhar nos faz felizes ou amarga a nossa vida. Portanto,
certamente vou querer saber como são os olhos da pessoa que, com a
expressividade de seu olhar, me transmitiu felicidade ou desgraça.
O que está por trás desta experiência? Algo muito profundo e
do que tantas vezes não temos consciência. É a sensibilidade. Aquilo a que
somos sensíveis. Ou, pelo contrário, totalmente insensíveis. Mas o fato é que a
sensibilidade nos configura e nos define na vida. E que determina o que fazemos
ou o que deixamos de fazer. Por isso, porque nós somos assim e assim se
comportam os seres humanos, precisamente por isso se compreende que nos quatro
Evangelhos, quando se explica o encontro e a relação dos discípulos (e das
pessoas) com Jesus, dá-se mais importância ao “seguimento” de Jesus do que à
“fé” em Jesus.
Basta recordar que nos Evangelhos sinóticos, fala-se 36
vezes da fé (“pistis”), ao passo que o seguimento (“akolouthein”) de Jesus é
mencionado 57 vezes. E o Evangelho de João, que tanto insiste na fé (40 vezes),
a primeira e a última coisa que explica é o seguimento de Jesus, assim como o
viveram os discípulos (Jo 1, 37.38.40.43; 21, 19.20.22).
No entanto, na Igreja trabalhou-se duramente para construir,
manter e aplicar à vida dos fiéis uma sólida teologia da fé. Por isso, no
Vaticano, existe uma Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, que tem um
poder decisivo na organização e gestão do governo eclesiástico. No entanto,
após mais de 20 séculos, ainda não temos na Igreja uma sólida teologia do
seguimento de Jesus. E – o que é mais estranho – a teologia dogmática livrou-se
do “seguimento”. E o deslocou para a espiritualidade, para fomentar a piedade e
a devoção, ao mesmo tempo que se fomentam também as vocações sacerdotais e
religiosas.
A preferência de bispos e teólogos pela teologia da fé é
compreensível. “Aceitar a fé” comporta inevitavelmente “aceitar a submissão” da
mente, da consciência, da vontade ao que diz e decide a Hierarquia. Ser um bom
crente é tornar-se submisso e renunciar a uma mentalidade verdadeiramente
crítica. Isso combina bem com o clero, que assim mantém firme seu “sagrado
poder”. E combina bem com os fiéis submissos, que assim tranquilizam sua
consciência, com a certeza de que Deus sempre os perdoa, quer seja a culpa ou o
pecado que possam cometer.
Compreende-se, pois, que a teologia da fé seja a preferida
por aqueles que exercem o “sagrado poder”. E também aqueles que, mediante sua
ortodoxia crente, se veem a si mesmos com a “consciência tranquila” e as “mãos
limpas”. Ao passo que, pelo contrário, também é compreensível que a teologia do
seguimento de Jesus tenha sido transferida para as margens da Dogmática, para
ficar relegada ao terreno da Espiritualidade. Assim, os fervorosos, os devotos,
os chamados a grandes heroísmos de generosidade, entram nos seminários ou vão
ao noviciado, para “identificar-se com Jesus”. Isso, sem dúvida, era o que se
dizia em tempos idos.
Não coloco minimamente em dúvida a importância central da
fé, como sempre o explicou a Igreja. O problema, na minha opinião, está no
seguinte: se aceitar a fé é aceitar a submissão, da mesma maneira aceitar o
seguimento de Jesus é comprometer-se com a liberdade de qualquer submissão que
não seja “viver como Jesus nos ensina em seu Evangelho”.
Pois bem, é aqui que entra em jogo a sensibilidade. O
dicionário da RAE diz que “sensibilidade” é a “propensão do ser humano a
deixar-se levar pelos afetos de compaixão, humanidade e ternura”. O Papa
Francisco faz teatro quando abraça e beija as crianças, os doentes, idosos e
mendigos? É um comediante quando o vemos feliz perto dos últimos deste mundo?
Não há dúvida: a teologia do Papa Francisco brota de uma sensibilidade que, ao
conectar-se com os últimos, é a sensibilidade da liberdade e da insegurança
vivida por aquele pobre galileu de Nazaré, que nasceu onde nascem os animais
(um presépio) e morreu onde acabam os criminosos (uma cruz).
A teologia de Francisco é, sobretudo, a teologia do
seguimento de Jesus. Uma teologia com a qual não estamos acostumados. Por isso,
desconcerta a uns, irrita a outros, e a todos nós coloca perguntas que não
sabemos responder. Perguntas que despachamos dizendo tranquilamente (e, às
vezes, irritados) que este Papa “não sabe Teologia”, nem é o Papa de que a
Igreja precisa. Será que não é a nossa Teologia que anda mais desorientada do
que possamos imaginar?

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