Ao «nosso» amigo Carlos, porque todos gosta(ría)mos de ter amigos assim

«Ao meu amigo Carlos» é uma crónica de José Luis Seixas, no jornal Destak, de 3 de maio de 2017.
«Carlos estará a viver hoje o momento mais impressivo da sua vida. Será um dos poucos afortunados que, nesta quarta-feira, se encontrará com o Santo Padre em audiência privada.
Carlos não é um dos importantes deste mundo. É um homem comum, alentejano de cepa, marido extremoso e pai dedicado de três filhos. Toda a sua vida foi vivida com intensidade, transbordante em alegria e propensa ao exagero. Em tudo. Também nas amizades.
Carlos cedo desistiu do curso de Direito e fez-se publicitário e, sobretudo, mediador de negócios. Ganhou e perdeu. Esteve bem e foi generoso. Passou pior e nunca se queixou. A sua história pessoal chegou ao Vaticano. E justificou este gesto do Papa Francisco.
Mas, perguntarão, que história. Carlos sofreu um vaticínio duro e praticamente letal: leucemia aguda. Sofreu durante anos as consequências da doença. Internamentos intermináveis no IPO, hipóteses de dadores de medula que se esfumaram e, finalmente, o privilégio de encontrar no seu filho do meio a compatibilidade necessária. Depois de muito porfiar e sofrer está a salvo e quase curado.
Mas, não foi este desígnio que determinou o momento de hoje. É que Carlos, com prognóstico dramático e padecimento intenso, se transformou no anjo da guarda dos seus colegas doentes do IPO. Dando alento, distribuindo carinho, esperança e conforto a todos os outros, designadamente aos que precisariam menos do que ele. Tudo fez para, com a ajuda e a cumplicidade dos profissionais do IPO, transformar aqueles momentos terríveis em suportáveis e, na medida do possível, com alguma alegria.
No IPO, como doente grave, Carlos nunca deixou de celebrar a alegria de estar vivo e a bênção da vida. É esta a história que o levou à presença de Francisco. E hoje, neste momento, desfazendo-se em lágrimas (sempre foi muito chorão…) ali está com a Mulher, os Filhos, as Noras e os Netos, perante o Papa, recebendo a sua merecida bênção.
Ao Carlos já lhe agradecemos de todas as formas esta enorme lição de bondade. Nunca a esqueço. Nunca o esqueço. E só espero que, nas suas precisas circunstâncias, consigamos ter um décimo da sua coragem e da sua humanidade para iluminar a noite escura do sofrimento. Grande abraço, Carlos. Que Deus te abençoe!»

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