As crianças abraçam as mães perante o mar Mediterrâneo


Alguém alertara: «Mães, ponderem antes de enfrentar o Mediterrâneo. Perdi o meu bebé na travessia. É muito perigoso.»

E ali estava a lancha que prometera retirá-los da guerra e enviá-los para um futuro diferente.

O grupo acotovelava-se de ansiedade. No seu íntimo, esse sinal de alarme impedia aquela mulher de embarcar.

Chegou então um homem apressado. Pedia que o deixassem seguir viagem, sair dali. Nas mãos, o pagamento em falta. Parecia transtornado com a ideia de não partir. O terror que lhe cegava a consciência atordoava até as suas maneiras.

Nesse instante, ela decidiu. Trocou o seu lugar pelo do homem. Do cais, com o dinheiro da viagem nas mãos, viu a lancha afastar-se, noite adentro. Ao colo, a menina de dois anos, adormecida de cansaço e medo, não reagia, protegida no sono das águas enganadoras.

A mulher sentiu que alguém observava as águas enegrecidas pela noite de almas perdidas, impedidas de atingir o destino. Sentiu que um abraço lhe cingia os ombros. Sentiu, no olhar da jovem que a acolhia, uma tristeza modificada.

― Não chega ser mãe ― sussurrou a jovem. ― É preciso ter a coragem de não embarcar no desespero. Vem. Tenho lugar para ti.

Caminharam em silêncio. Num barraco apertado, outros olhares semelhantes, baços de cansaço e algum remorso, mas também prontos a ganhar luz. Mulheres que, como ela, haviam recusado arriscar a vida dos filhos, já que as suas, sem eles, pouco importavam.

― Não sabemos como sair daqui ― explicou ainda a jovem. ― Apenas sabemos ser mães, não sabemos se chega. Temos a esperança connosco. Mesmo ténue agora, irá crescer, é uma batalha que estamos dispostas a travar. Sejas bem-vinda.

Repartiram os cobertores e alguma comida. A mulher deu todo o dinheiro recebido, ajudaria as interrogações do dia seguinte, talvez da semana seguinte.

Nesse momento, a menina acordou. Olhou em volta e sorriu. Abraçou a mãe, deu-lhe um beijo feliz. Várias mulheres se comoveram. Mais uma centelha de esperança chegava. Fizera a escolha certa.

Margarida Fonseca Santos, https://capazes.pt 18 de maio de 2017
Foto: UNHCR/A.McConnell

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