Ascensão: subir ao Céu e descer em direção ao vasto mundo


Entramos na última semana do tempo da Páscoa com a celebração da festa da Ascensão de Jesus.

“Ressurreição”, “Ascensão”, “sentar-se à direita de Deus”, “envio do Espírito Santo”, são todas realidades pascais; constituem um só “mistério=revelação do ser e agir de Deus para nós e connosco”.

Os três dias para a Ressurreição,
os quarenta dias para a Ascensão,
os cinquenta dias para a vinda do Espírito Santo,
não são tempos cronológicos, mas teológicos.
Eles revelam a maneira de ser de Deus,
não o tempo em que Ele atua.

A Ascensão faz-nos refletir sobre um aspecto do mistério pascal: Jesus tem poder total sobre a Vida, participa da mesma Vida de Deus e, portanto, está no mais alto do “céus”.

Segundo o relato de Mateus, indicado para a festa deste ano, não há ascensão propriamente dita, mas revelação e presença do Senhor Jesus na Montanha da Galileia, com a Sua palavra, a Sua presença e o Seu envio missionário.

Esta eleição da Galileia é muito provocativa.
No centro da Galileia eleva-se a montanha onde Jesus
- como novo Moisés -
dá a nova e definitiva revelação de Deus.

Ao mesmo tempo, Galileia aparece nesta passagem como ponto de partida de um caminho - o começo de um novo êxodo - que deve dirigir-se ao conjunto dos povos. 

«Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima dos céus para plenificar o universo com sua presença» (Ef 4, 10). A citação de São Paulo vem desfazer uma certa tendência a considerar Jesus na Ascensão como alguém que partiu, que nos deixou, que está mais acima, “no céu”, enquanto que nós ficamos aqui “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.

Jesus não vai a nenhum lugar, senão que permanece com os seus (“estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”). Isso significa que Ele ressuscita e atua em seus amigos e amigas, naqueles que vivem e espalham, com suas vidas, a Grande Mensagem de vida.

Na Ascensão, Jesus nem partiu nem se ausentou;
não nos deixou órfãos nem solitários.

Recordemos as experiências das Aparições do Ressuscitado, onde Jesus foi nos ensinando como nos encontrar com Ele e a estar com Ele: na “Palavra”, na “fracção do pão”, na “Eucaristia”, partilhando a nossa vida, como pão de vida para os outros, no “perdão salvador”, no “serviço”, nos “sacramentos”, no “próximo”, na “missão evangelizadora e apostólica”, na “construção do Reino”, no mundo e na realidade social na qual vivemos, praticando a fraternidade e justiça social, segundo “os sinais dos tempos”, etc.

Os “onze” da Ascensão são/somos todos, homens e mulheres na Montanha do Evangelho, para começar de novo, desde a periferia do mundo, como humanidade nova, como grupo, unidos no amor, todos e todas formando a grande comunidade da nova montanha da vida.

A tarefa fundamental que Ele nos confia é clara:“fazer discípulos”, isto é, ativar em todos uma maneira alternativa de viver, centrada no modo de proceder do próprio Jesus.

«Homens da Galileia, porque ficais aqui parados, olhando para o céu» (At 1,11). É como se dissesse: “olhem a terra e todas as pessoas, vejam suas lágrimas e angústias”, assumam tudo como algo próprio dos discípulos e discípulas de Jesus; ocupem-se em transformar toda a realidade com os valores do Reino, inspirem homens e mulheres a serem presença do amor e da justiça junto àqueles que mais sofrem, despertem a vida atrofiada e escondida naqueles que perderam o sentido de sua existência, prolonguem em suas vidas aquela presença original de Jesus...

De facto, Ascensão
significa o início da missão da nova comunidade ressuscitada.

P.e Adroaldo Palaoro, SJ, Centro de Espiritualidade Inaciana

Comentários