Se tenho certeza não há necessidade alguma de fé.
Portanto, certeza e fé não combinam. O contrário é correto:
Eu não tenho certeza da existência de Deus, mas tenho fé em Deus. Quando
morrermos, todos nós perderemos a fé, pois poderemos ver Deus “face a face”,
como diz São Paulo (Carta aos Coríntios 13, 12).
Enquanto isso não acontece, a fé é a minha única
possibilidade de ter uma relação com Deus. Para que a essência da fé seja compreendida
é necessário também reconhecer a dúvida como sua companheira.
Já que fé não significa certeza, ela também não é antónimo
de dúvida. Quem afirma ter perdido a fé por ter muitas dúvidas, também não
compreendeu o seu significado.
Justamente a dúvida pode ser um sinal de uma grande fé. Se
colocarmos a certeza e a dúvida em seus devidos lugares, podemos então chegar à
essência da fé, ou seja, à coragem.
O sinónimo de fé é na verdade coragem e o seu antónimo é o
medo.
Ter fé é libertar-se do medo que limita o nosso viver.
Fé é ter a coragem de lançar-me nos braços de um ser,
chamado por mim de Deus, diante do qual não tenho provas, muito menos a
certeza, de sua existência.
Fé é ter coragem de dizer sim para a vida e acreditar em um
ser maravilhoso que me ama profundamente.
Ter fé é se jogar em um abismo escuro, sem saber exatamente
o que me aguarda em seu fundo.
Ter fé não é aceitar uma tradição, por ter medo de viver, ou
por ter medo de que a minha vida se torne um desastre ou um fracasso. Eu não
assumo uma fé pelo medo de, mais tarde, ser lançado no inferno, mas sim por ter
coragem de, neste momento, querer construir o céu através de uma relação com
Deus.
Ter fé é viver um relacionamento com Deus sem nenhuma
hipocrisia ou medo de sermos nós mesmos.
Ter fé é ter coragem de duvidar, de questionar e fazer
perguntas, o que significa ter com Ele um relacionamento vivo.
Uma pessoa de fé é aquela que busca apaixonadamente a vida,
a alegria de ser, o movimento que anima, amplia, aprofunda e transforma.
Fé é não ter medo de ser feliz e compreender que
“conformar-se é morrer” (Henry Thoreau).
A fé também não está necessariamente ligada à uma religião
institucionalizada. Uma pessoa pode ter fé, sem pertencer a um grupo religioso.
Mas é necessário que os membros de uma religião tenham fé, caso contrário a
religião torna-se um cumprimento frio de preceitos e normas, um ritualismo ou
um negócio.
O papel de uma religião é oferecer uma experiência de grupo
que esclareça, alimente e mantenha viva a fé, ou seja, a profunda coragem de
viver. Para todos os cristãos, hoje inicia-se o Advento, o tempo de preparação
para o Natal.
Seria ótimo se todos nós nos preparássemos para que este
momento quotidiano viesse a ser um momento de verdadeira fé: de libertação de
nossos medos e o nascer do Novo em cada um de nós.
Padre Beto, Sem medo de voar: uma filosofia para o cotidiano


Comentários
Enviar um comentário