Os sacerdotes dispensados do exercício ontem e hoje. E amanhã? Reintegração dos padres casados!


Muitos bispos estão conscientes de que, neste século XXI, se a lei do celibato não desaparecer, a Igreja passará pela crise mais grave da história em termos de falta de sacerdotes

Com tenacidade, sem violência nem estridências, é assim que tem caminhado a maioria de nós, os sacerdotes dispensados do exercício; o nosso sacerdócio é de Cristo, in aeternum. Exercemo-lo no trabalho simples, na evangelização diária em família, na catequese, no ambiente adequado, em lugares de encontro.

Josemari L. Amelibia, www.periodistadigital.com, 28.05.2017

Não praticámos um sacerdócio clandestino ou subterrâneo, à margem da hierarquia. Dialogámos com ela e dizemos constantemente que, se somos sacerdotes, seremos tais para sempre, e que teologicamente não podemos ser mantidos indefinidamente afastados do ministério para o qual fomos ungidos com o sacerdócio de Cristo. Por alguma razão imprime carácter o sacramento da Ordem. Enquanto isso, esperamos, oramos e elevamos nossa voz sem violências, mas constantemente.

Mantivemos nosso relacionamento por meio de reuniões, de correspondência ordinária e eletrónica, de telefonemas. Foi assídua a nossa comunicação, mas agora está a diminuir; muitos passaram para a outra vida; outros fomos ficando muito velhos. Gostaríamos que muitos padres celibatários tivessem o mesmo espírito de grande parte dos padres casados. E que os jovens que deixam o clero, carreguem a tocha.

Hoje já se fala da iminência da ordenação de homens casados e nós comemoramos isso, mas o nosso caso permanece sem resposta. A verdade é que os da minha geração pouco ou nada podem ajudar; mas ainda há muitos jovens; a messe é grande e os operários poucos.

Sabemos que nas altas esferas da hierarquia da Igreja se está trabalhando seriamente para resolver o problema da falta de vocações, no que diz respeito ao problema do celibato. Aproveitou-se, em grande silêncio, o serviço dos padres casados católicos, estudando caso a caso e mudando de rito, para serem capelães das forças armadas, em países onde o clero era escasso. Tudo isso sem a objeção de Roma, e com o seu conhecimento, e ao que parece, com a aprovação oficiosa. Tudo eram rumores.

Muitos bispos estão conscientes de que, neste século XXI, se não desaparecer a lei do celibato, a Igreja vai passar pela crise mais grave da história em termos de falta de sacerdotes. E já se começou a pôr remédio, como sempre 50 anos mais tarde. O que não foi imposto pela razão, pelo diálogo e pelo fracasso histórico de uma lei tão pouco evangélica, será imposto pela necessidade absoluta.

Os casamentos civis de padres continuam a ser numerosos. Muitos foram consequência do atraso na concessão de dispensas, nos tempos de João Paulo II. Hoje as causas desses casamentos civis são outras. "É tão grave o intrometer-se na consciência do indivíduo, que nem a Igreja deve fazê-lo". Se um padre pede a dispensa para casar-se, ela deve ser concedida por humanidade, por direito da pessoa e por equidade com dispensas concedidas anteriormente. Assim pensávamos então.

Agora, respeitamos a consciência dos sacerdotes que se casam no civil, eles não se julgam pecadores. Talvez a razão seja muito clara: "As leis da Igreja não podem obrigar sob pecado mortal, a menos que a gravidade seja evidente em relação ao decálogo". Simples assim. Mas nos nossos tempos de jovens, os moralistas nos enchiam de medo com pecados mortais por qualquer coisa. Poderiam ser cometidos até oito pecados mortais por dia se não se rezasse, hora a hora, o breviário! Mas Jesus veio para nos salvar não para nos condenar.

O nosso ideal: a reintegração no ministério dos padres casados que o desejem, e casamento livre para o clero diocesano. A primeira, ainda vai levar tempo, o segundo tardará muito mais. E se não, o tempo!



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