«Porque será que os adultos choram?» Esta é uma das perguntas que faço pelos quatro cantos do mundo e que remete automaticamente para a capacidade de empatia.
Parece simples, mas perguntar-nos o que será que sentem as pessoas nas diferentes situações, permite-nos ginasticar a perspetiva sobre nós, os outros e o mundo. Praticar empatia.
Maria Palha, psicóloga, www.mariapalha.com
Em Lisboa, o Rafael, de 5 anos, respondeu-me, perguntando: “Eles choram?! Não sabia...»
«Se calhar é porque estão tristes... e nesse caso o melhor a fazer é mesmo chorar”, acrescentou o mais velho dos irmãos Maray (com 8 anos).
A Mia disse-me, após uns momentos de reflexão: «É porque são humanos... também sofrem.»
Já o Diogo, o Pedro (lisboetas de 8 anos) e a Tendza (de Bureh, Serra Leoa, com 7 anos) estavam certos de que era por terem problemas no amor: «As mulheres choram por causa dos homens e os homens normalmente choram por causa de mulheres.»
Mas Tendza ficou dividida e acrescentou: «Também pode ser por causa dos amigos... é isso. Quando eles lhes fazem alguma coisa má.»
Maria Mackabala também me surpreendeu com a sua perspicácia de 8 anos. Ela declarou que os adultos choram «porque quando crescem as pessoas deixam de ter outras pessoas para os encorajar, para os apoiar e acompanhar nos momentos difíceis.» Para isto Mackabala dizia-me que era fundamental «aproximarmo-nos de quem está triste e ficar junto. Encorajar essa pessoa até que passe.»
Empatia é a competência que está na base das relações
Empatia é a capacidade de me colocar no lugar do outro, de entender o que sente em determinada situação. É, portanto, uma competência essencial para relações saudáveis, mais harmoniosas e acima de tudo, mais humanas. Está na base do altruísmo, da generosidade e de tomadas de decisão socialmente responsáveis.
Uma sociedade sem empatia é uma sociedade desumana, como acontece com o terrorismo, ilhada a nível social e anémica emocionalmente. Não acredito que Portugal se inclua nesta definição, mas de acordo com o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) somos o terceiro país do mundo onde se consomem mais antidepressivos. O que me preocupa é que estes números revelam que grande maioria dos adultos encarregues pela educação das futuras gerações de Portugal, sofre ou já sofreu, de uma tristeza profunda e prolongada no tempo, de depressão.
O que caracteriza alguém que passa por uma fase destas, para além da tristeza, é sua dificuldade em ter perspectiva: «Isto nunca vai mudar» e ter um olhar sobre o mundo como «um lugar perigoso» onde os outros representam uma ameaça. Esta combinação dificulta a prática de nos colocarmos no lugar do outro, de altruísmo ou generosidade.
Ora uma criança que cresce com este adulto deprimido, tenderá a não receber as bases de empatia, poderá tornar-se naquele líder egoísta, na mulher fria ou emocionalmente instável, na pessoa inexpressiva ou conflituosa nos seus relacionamentos, ou no marido egoísta que toma decisões sem nunca equacionar o impacto que terá na sua família. As boas notícias é que tratando-se de uma competência, com ou sem depressão, com ou sem ondas, a podemos praticar. Seja em nós adultos ou na educação dos nosso filhos.
Por isso aqui ficam algumas ideias.
Dica para ser um cuidador mais empático:
Antes de emitir uma opinião para as crianças, seguir a regra das 3 perguntas:
1. Porque será que o meu filho agiu assim?
Permite que se coloque no lugar dele, e reaja tendo em conta o que este está a viver. Praticará também a sua capacidade de empatia e ficará mais fácil para a criança aprender com o seu exemplo.
2. Que lição lhe quer transmitir?
Ajuda a delimitar o objetivo que pretendemos. Já que às vezes é comum ouvir “ele fez mal, fica de castigo” sem haver um moral da história.
3. Qual a melhor forma de o transmitir?
Ajuda a que se identifiquem quais as melhores ações/castigos/métodos...
Uma receita para brincar à empatia:
Diga (ou faça cartões com) as seguintes situações (pode ir mudando conforme se sentir mais criativo/a ou até mesmo ajustar as situações à realidade aí em casa):
“Ele deixou cair o Gelado”,
“A festa de anos dela é hoje”,
“ela tem que ficar de cama uns dias”,
“caiu da bicicleta e partiu-a”,
“Está há 3 horas no carro”;
“mais uma vez gozaram com ele na escola”,
“A professora já o avisou para parar com a brincadeira”,
“O primo deu-lhe um brinquedo novo, mas o melhor é sempre para o irmão”,
“Ele queria mesmo era ir ter com o Pai”,
“O cão vai ter que ser operado novamente”,
“O cão dele morreu”,
“ele vai ter uma ficha amanhã”,
“ele vai ter que pedir ajuda a um desconhecido”,
“Tem que estar à espera de alguém para o vir buscar”,
“ele nunca recebe os presentes que quer”,
“ela fez um desenho lindo”.
Diga (ou faça) uma lista de emoções. Por exemplo:
Desapontado, excitado, feliz, triste, ciumento, zangado, com vergonha, confuso, orgulhoso, preocupado, grato, frustrado, com medo.
A ideia é que diga as situações à criança e que, perante cada situação, ela diga o que acha que o personagem daquela situação está a sentir.
Pode ir mudando as situações ou ajustá-las à realidade do seu filho/a. Se lá em casa gostarem de artes plásticas, também podem escolher imagens de revistas que ilustrem as situações á medida que vão pensando no que sente a personagem.
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