«É necessária uma formação contínua do clero (e dos seus afetos)»


Tomando como referência os escândalos de cariz sexual do padre Contin, o que fazer diante dos sinais de desconforto dos sacerdotes?

E se a solução fosse continuar a formar-se, a autoformar-se, sem parar, do mesmo modo que avança sem parar o mundo e a paróquia?

E se a solução estivesse contida em duas palavras antigas, direção espiritual, ou numa pessoa sábia com a qual dialogar acerca do próprio estilo de vida?

Quando um sacerdote ou um religioso falha nas sua obrigações, trai e causa  escândalo, não há fórmulas mágicas. Mas estudo, atenção e, acima de tudo, nunca, nunca, nunca voltar a cara para o outro lado.

O padre Giuseppe Crea, missionário comboniano, psicólogo e psicoterapeuta, professor de técnicas psico-diagnósticas na Pontifícia Universidade Salesiana, tem experiência para dar e vender. Entre os seus livros mais recentes: Tonache ferite [Batinas feridas], Forme del disagio nella vita religiosa e sacerdotale [Formas de desconforto na vida religiosa e sacerdotal] (Edb, 2015) e Preti e suore oggi [Padres e freiras hoje], Come riconoscere e prevenire i problemi [Como reconhecer e prevenir os problemas] (coautoria de Fabrizio Mastrofini, Edb, 2012).

Umberto Folena, em www.avvenire.it
Tradução: Orlando Almeida

O caso do pároco de São Lázaro (em Pádua), o padre Andrea Contin, é apenas o último de uma longa, triste série. Sacerdotes e religiosos que traem a si mesmos, a comunidade, os confrades. Padre Crea, são casos isolados e irrelevantes ou o sinal de um mal-estar generalizado?
Estes casos mostram que a Igreja precisa demudar de rumo, ou seja, mudar as bases da sua maneira de formar. Os tempos são especiais, o pontificado é favorável, a renovação pode ser profunda.

Mas o que acontece com estes padres? E o que é preciso corrigir no atual modelo de formação?
Precisamos de formar padres capazes de dirigir uma comunidade paroquial com tudo o que isso implica. Mas a pessoa não é um autómato. Quando se está no meio de gente, sempre entra em jogo a dimensão afetiva. Se o padre não for bastante maduro, mas alimentar frustrações e conflitos, estes podem ser as premissas dos primeiros deslizes.

E ninguém percebe os sinais de mal-estar já presentes?
A patologia nunca aparece de improviso mas  tem uma história anterior, e muitas fragilidades já estão presentes quando um candidato pede para entrar no seminário. Temos que nos perguntar: por que pede? Nunca devemos esquecer-nos da lição do padre Luigi Rulla.

O ilustre psicólogo jesuíta?
Morreu há 15 anos. Médico, filósofo e teólogo, formado em psiquiatria em Montreal e em psicologia em Chicago, fundou em 1971 o Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana. A sua lição não deve ser esquecida. Ele nos dizia: os que entram no seminário têm imensas motivações ótimas, mas exteriores. Diferentes das interiores, subconscientes. É preciso começar por aí.

Mas como perceber o desconforto interior, se não aparece? Devemos encher os seminários de psicólogos?
Não, não precisamos de novos superformadores especializados. Basta que cada um faça bem, integralmente, o seu dever. Um formador sabe ler o relacionamento com o formando, mas deve ter boas capacidades relacionais. É preciso ficar extremamente atentos aos sinais da vida cotidiana. Não é muito diferente do que acontece na família. Para ser bons pais, não é necessário ter um currículo refinado. Basta saber captar os sinais e não olhar para o lado.

Concretamente, que sinais?
Por exemplo, há os que bebem um copo a mais. Uma vez só: paciência. Mas a coisa se repete e então não se pode fingir que nada aconteceu. Os jesuítas americanos falam de "normalização do desvio." É uma espécie de "bonismo relacional" que nos impede de ver e de dizer a verdade. Voltando ao exemplo da família, acontece que o marido maltrate a esposa e se diga: foi só uma vez, esperamos que não se repita. Mas pelo contrário, é um sinal forte que não deve ser ignorado. Com um sacerdote acontece algo semelhante: espera-se que ele se emende, que não volte a acontecer. Transferem-no... Mas entretanto a patologia avança... Muitas vezes transferir o sacerdote é pior: quem tem problemas de relacionamento convence-se de não ser compreendido pelos superiores e pelos irmãos, mas na comunidade continua a bancar o "super-padre" e todos o felicitam.

Um desastre anunciado...
É como se o desvio se tornasse parte da vida diária e todos fingissem que não percebem. O padre bebe além da conta, recebe a penitente no seu quarto, desaparece por alguns dias sem que se saiba onde está... mas realmente ninguém se preocupa de verdade.

Porquê?
Um padre que bebe não é uma coisa normal e cria mal-estar à sua volta, por isso as pessoas fingem que não vêem. A psique pode levar-nos a ignorar o que nos causa inquietação.

Medo de manter os olhos abertos?
E medo da sinceridade. Tomemos como exemplo o papa Francisco. Porque desperta admiração?  Devido à sua franqueza, porque diz as coisas, não manda dizer. Mas atenção, ele é um excelente formador e a sua aparente emotividade não nos deve enganar.  Com os seus comportamentos ele provoca sempre uma reflexão, dá explicações. Se beija uma criança, depois explica por que é importante acolher o outro.

O que falta então ao atual processo de formação de religiosos e sacerdotes?
Os sacerdotes não são, não devem ser, funcionários a quem se entrega uma paróquia e adeus. Na solidão e na frustração, as patologias filhas de uma fragilidade anterior encontram caminho fácil. Precisaremos saber fazer uma formação permanente que, atenção, não consiste num ano sabático ou nos exercícios espirituais. É necessária uma ligação estreita entre formação e vida, sem paradas, que ajude o padre a aprender sempre.

Auto-formação? E como?
A paróquia é muitas vezes um veículo tão vertiginoso que tira o fôlego. Um veículo delicadíssimo: a vida do povo está nas mãos do sacerdote. Sabe como se chamava antes esta supervisão permanente de si mesmos? Direção espiritual. É preciso discutir o próprio estilo de vida com uma pessoa sábia.

Existem, disponíveis, todas estas pessoas sábias?
Esta é outra questão.

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