Porque se fala de uma Igreja clandestina na China?


Na China, estima-se que os cristãos sejam 70 milhões (5,1 % da população, em torno dos 1, 3 mil milhões) e, destes, 12 milhões sejam católicos (0,01 %).

Em relação aos católicos, o Governo da República Popular da China (RPC) só reconhece oficialmente um movimento, que é a Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC) - organismo estatal fundado em 1957, com o objectivo de controlar e supervisionar as atividades dos católicos chineses.

A Constituição chinesa, datada de 1978, reconhece várias religiões - catolicismo, protestantismo, islão, taoismo e budismo -, mas o exercício da liberdade religiosa é muito limitado. As religiões podem ser úteis para a ordem moral e pela sua ação filantrópica, mas não têm voz ativa na vida social, económica e política.

Na China, a Igreja Católica é, teoricamente, reconhecida pela lei, mas o governo comunista não aceita que os bispos sejam nomeados pelo Papa; só reconhece os bispos da Associação Patriótica, que são escolhidos pelo próprio governo.

O Partido Comunista da China é quem decide quem deve ser ordenado bispo ou não. Ora, isso é contrário à prática milenar da Igreja Católica. No Credo diz-se que a Igreja é “apostólica”, ou seja, que está fundada sobre os apóstolos, ao redor de Pedro. Os bispos são os sucessores dos apóstolos e são considerados “católicos” quando estão em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma, ou seja, o Papa. O sinal desta comunhão é que os novos bispos são nomeados pelo Pontífice; no mínimo, se forem designados por outra instância, seus nomes devem ser propostos ao Papa para que este os reconheça como bispos católicos.

Igreja Patriota e Igreja clandestina
Os católicos chineses estão divididos entre uma Igreja “patriótica” - submissa ao Governo - e uma Igreja “clandestina”, perfeitamente conhecida pela polícia, em comunhão com o Papa.

Diante da ingerência do Partido Comunista Chinês nos assuntos religiosos, os católicos chineses dividem-se. É preciso privilegiar a fidelidade a Roma a qualquer custo? É preciso adaptar-se ao que o governo pede, professando-se membro da Igreja Patriótica?

Os Papas e a China
O Papa João Paulo II sempre quis visitar a China, mas a esperança acabou frustrada. O seu sucessor também teve esse desejo. E escreveu uma longa carta, destinada a todos os católicos da China, em 2007. Seguindo a doutrina do Concílio Vaticano II, mostrou nela que a Igreja Católica não reivindica nenhum poder político e quer trabalhar lealmente pelo bem comum. Explicou em que condições os católicos podem cooperar com os organismos do Estado. Para a nomeação dos bispos, afirmou ser ilegítima a consulta ao governo. Disse como se poderia regularizar a situação dos bispos ordenados sem o consentimento de Roma. E oferecia orientações para a vida cristã e a projeção do Evangelho na China de hoje.

Ainda que o texto seja respeitoso no fundo e na forma, o governo chinês considerou-o como uma ingerência intolerável de um poder estrangeiro nos assuntos do país.

Conflito permanente
O conflito renasce constantemente por ocasião das ordenações episcopais.

O Vaticano esforça-se sempre para que as comunidades cristãs estejam providas de pastores e que a unidade seja reconstruída.

Nos últimos 15 anos, parecia haver condicionamentos: reconhecimento, por parte do Vaticano, da maioria dos bispos nomeados pelo governo, se estes o pedissem; nomeações novas, com o consentimento do governo.

Todavia, os casos mais recentes reacendem o conflito: nomeações unilaterais por parte do governo; tentativas de comprometer bispos “clandestinos” na ordenação de bispos “patriotas”; colocação em quarentena de um bispo que, após sua ordenação, renunciou às suas funções nos organismos do Estado.

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