«A primeira vez que se emprega o termo “irmão” para designar os membros da comunidade cristã é no Evangelho deste 23.º Domingo Comum, no capítulo 28 do Evangelho segundo Mateus»
«Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a
sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três
testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja;
Na verdade, onde estiverem dois ou três reunidos em meu
nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20).
O que nos diz a Palavra de Deus?
O Evangelho de hoje revela um modo original de viver e
proceder, que tem a sua inspiração no modo de viver e agir do próprio Jesus.
É bonito ver como Jesus prepara e acompanha os seus amigos,
os apóstolos, para a vida de comunidade e para a missão. Ele dedica à formação
dos Doze as suas melhores forças e os seus ensinamentos.
O fundamental, nesta formação, é o «estar com Ele»: a convivência,
a intimidade, a partilha de vida e de sonhos...
Jesus tem consciência de que nenhuma comunidade dos seus
seguidores poderá subsistir se imperar um estilo de vida individualista,
competitivo e incapaz de acolher as limitações e fragilidades de cada um. Daí o
seu constante convite a provocar encontros que ajudem a integrar, re-unir,
re-ligar, articular o grupo. E há tantas vidas isoladas, rejeitadas...
esperando por cooperação.
Atente-se que, este trecho do Evangelho é a primeira vez que
se emprega o termo “irmão” para designar os membros da comunidade cristã.
O que a palavra de Deus me faz experimentar
O sentido de que a vida é para viver em comum é um dom de
Deus, que nos foi dado a todos.
O fundamento é o próprio Deus, Amor Trinitário, comunhão de
Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Que, pelo mesmo Amor, também Se faz
Criador.
E nós, como criaturas, temos a marca trinitária de Deus:
- Como homem e como mulher, trazemos esta força interior que
nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, fortalecer a comunhão...
- Como seres vivos, somos interdependentes com os outros
seres vivos.
- Como seres racionais e emocionais, percebemos que não
fomos feito para viver sós, mas para con-viver, viver-com-os-outros;
O termo comunidade faz referência a algo “comum”. Significa
«junto com», «um ao lado do outro, unido, junto», «disposto a», «preparado para
o serviço». Estar juntos, unidos na partilha do melhor de nós mesmos, é ser
“comum”. Nisso se expressa a comunidade.
Tudo na vida gira em torno das relações: com Deus, consigo
mesmo, com os outros, com a Natureza. Isso é especialmente verdadeiro numa
comunidade cristã:
- Famílias saudáveis… grupos saudáveis… igrejas saudáveis…
vidas saudáveis… ambientes saudáveis... tudo isto fala de relações saudáveis.
E relacionar-se é a grande e única finalidade da vida do ser
humano: encontrar-se, viver em sociedade, colaborar, construir amizades,
amores, conhecer gente...
Faço minha a vida de Jesus
No Evangelho de hoje, encanta-nos a delicadeza de Jesus, a
Sua delicada pedagogia. Jesus rejeita sempre o pecado, mas empenha todos os
seus esforços em salvar sempre a dignidade, a honra e a estima do pecador.
Segundo Jesus, o preconceito, a consciência julgadora, o
juízo rápido, são incompatíveis com o Evangelho. "Devemos corrigir como
pecadores”, não como “justos”.
Todos somos “santos e pecadores” e é enquanto pecadores que
somos chamados a ser presença que corrige com amor, somos chamados a fazer
“correção fraterna”.
O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano
não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de
o amar.
Corrigir com amor não significa pôr o outro de joelhos para
que reconheça as suas faltas; A correção fraterna nasce de um coração “educado”
pela Misericórdia divina.
A pessoa misericordiosa salva e redime só enquanto ama.
Nessa perspectiva, a comunidade é o lugar da “correção
fraterna”; e o critério para a correção não é a lei mas a presença de Jesus que
está no meio dela.
Quando a correção é feita a partir da lei, assumimos a
posição de juízes, rompemos a comunhão, criamos categorias de pessoas
(perfeitas e imperfeitas) e caímos no legalismo e moralismo.
Quando o critério da correção é a presença de Jesus no meio
da comunidade, Ele é o horizonte inspirador para que todos cresçam na
identificação com Ele.
A pessoa misericordiosa quer o bem do outro, entristece-se
com o seu mal, e sente o dever de fazer alguma coisa por ele. Trata-se da
motivação mais nobre e verdadeira de sentir-se responsável pelo outro.
Quem corrige está convencido de que o irmão é melhor que
aquilo que aparenta. Por isso pode dizer como Jesus “Vai e não peques mais”.
Corrigir, como Jesus, é ter esperança no ofensor, acreditar
na sua humanidade e ver nele um filho de Deus.
A correção fraterna ao estilo de Jesus abre futuro; faz
emergir outros recursos encobertos na pessoa; é impulso de vida, destrava a
pessoa, impulsiona-a a ir além de si mesma.
Reflexão dominical de P.e Adroaldo Palaoro

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