Segundo a Real Academia da Língua Espanhola, entende-se por clericalismo alguma das seguintes acepções: «Influência excessiva do clero nos assuntos políticos; intervenção excessiva do clero na vida da Igreja, que impede o exercício dos direitos dos demais membros do povo de Deus; ou, acentuada afeição e submissão ao clero e às suas diretrizes.»
Nesses significados, os dois primeiros supõem um protagonismo e responsabilidade direta do clero; ao passo que no último tanto a responsabilidade como o exercício do clericalismo cabem diretamente ao laicado.
M. A. Velásquez Uribe, em www.periodistadigital.com
Clericalismo é um desvio
Em qualquer uma das suas acepções, o clericalismo é um desvio da sã religiosidade e espiritualidade, pelo que, longe de ser virtude, é um mal eclesial que deve ser combatido e erradicado, para realizar da melhor maneira o bem social que compete à Igreja.
Embora haja plena consciência dos graves males que o clericalismo produz na Igreja, a sua resistência e erradicação é dificultada porque ele mesmo faz parte da cultura eclesial católica. Consequentemente, há uma espécie de conivência com este nocivo costume e tolera-se porque a sua erradicação implica conversão pastoral.
No entanto, não tem faltado orientação magisterial para combater este flagelo do clericalismo. Os três últimos papas condenaram-no com ênfases diferentes.
Enquanto Francisco o faz de forma sistemática, pública e vigorosa; Bento XVI fazia-o de forma esporádica, reservada ao clero e com o mesmo vigor. No entanto, a condenação pontifícia mais contundente foi feita por São João Paulo II. que a expressou na exortação apostólica Christifideles laici, dirigida precisamente aos leigos católicos.
Com efeito, João Paulo II dedicou um dos seus documentos pontifícios expressamente aos leigos católicos, onde sem mencionar a palavra clericalismo, expressou uma das críticas mais incisivas da Igreja nesta matéria. Na introdução do referido documento, afirma:
«O Sínodo acentuou como o caminho pós-conciliar dos fiéis leigos não tem estado isento de dificuldades e de perigos. Em especial podem recordar-se duas tentações, de que nem sempre souberam desviar-se: a tentação de mostrar um exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, por forma a chegarem frequentemente a uma prática abdicação das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, económico, cultural e político; e a tentação de legitimar a indevida separação entre a fé e a vida, entre a aceitação do Evangelho e a ação concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas» (ChL 2).
Nestas palavras há uma crítica frontal ao desvio do caminho pós-conciliar dos leigos que vinte anos depois do Concílio, os havia levado a ficar obcecados pelas questões intra-eclesiais, deixando de lado as responsabilidades sociais específicas da sua identidade e vocação primordial, como são o serviço das "realidades temporais".
A este respeito, é necessário concordar com o magistério que as identidades do clero e dos leigos se distinguem precisamente pelo seu âmbito ordinário de ação. De maneira que, sendo próprio do clero o serviço preferencial da Igreja ou da ecclesía (comunidade cristã)1, o próprio dos leigos é o serviço preferencial na sociedade, imerso em cada cultura. Sem serem excludentes, tanto a dinâmica da identidade do clero como a dos leigos são um critério orientador fundamental das capacidades de serviço da Igreja.
Só assim é possível compreender como, graças a um laicado amadurecido, livre de todos os vestígios de clericalismo, essa terna e consoladora alegria do Evangelho, assim como essa capacidade de sanar as estruturas de pecado que sustentam muitos males do mundo, possam estender-se aos mais recônditos espaços da vida humana e do mundo.
Nisto, não é que a Igreja, com o seu ensino, faculte ou conceda aos leigos um poder de serviço de alto impacto na vida e na sociedade, mas é reconhecer as potencialidades que o próprio Deus confia a um laicado que assume conscientemente a consequências de seu batismo.
Passados 52 anos do Concílio e 29 anos de Christifideles laici, o caminho do laicado continuou a desviar-se por novos atalhos e perigos que o afastam e distraem da sua missão essencial, precisamente devido ao crescente processo de clericalização, que lhe tira a sua fecundidade apostólica e domestica a sua parresia profética.
Nesse sentido, a conjuntura da escassez de clero e de membros da vida religiosa é antes de tudo uma desculpa para justificar esse enorme contingente humano que pulula em torno das paróquias, das sacristias e de uma ampla gama de distrações eclesiásticas. Nisso se esquece que o leigo não é para a Igreja, mas para o mundo.
Com a chegada do Papa Francisco a Roma, portador de novas e grandes esperanças para a Igreja, aparecem novos perigos. Precisamente quando temas antes impensados, como a maior participação das mulheres e do laicado na vida da Igreja, começam a ser discutidos, já há quem parece descobrir novas oportunidades para iniciar uma espécie de "carreirismo leigo".
Com efeito, e nesse anelo de maior participação, alguns parecem descobrir um espaço para integrar o laicado nas estruturas de poder da Igreja. Assim, interpreta-se como um grande avanço eclesial a integração do laicado, incluindo algumas mulheres e homens em postos-chaves de certos dicastérios romanos.
Se este é o desejo de reforma da Igreja, seria nefasta a utilização do laicado para dar validade a essa estrutura de poder religioso que nunca deveria chegar a ser a Igreja. Seria levar o laicado a participar dessa monarquia eclesial, da qual esta numerosa vocação da Igreja sempre esteve excluída, em virtude dessa hierarcologia viciada que felizmente a marginalizou.
A grande reforma da Igreja visa necessariamente a redescobrir os potenciais de um laicado maduro, para transformar as realidades temporais distorcidas pelo pecado; isso implica redescobrir as possibilidades e potencialidades do sacerdócio comum dos fiéis para despertar aquele gigante adormecido que é o laicado católico.
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