O ditado está registado em todos os Evangelhos: «Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la» (Mt 16, 24Mc 8,34-38; Lc 9,23-27; Jo 12,25-26).
E Jesus está a propor aos seus discípulos qual é o verdadeiro valor da vida.
O ditado está expresso de forma paradoxal e provocativa. Há duas formas muito diferentes de orientar a vida: uma conduz à salvação, a outra, à perdição.
Ora, Jesus convida todos a seguir o caminho que parece mais duro e menos atrativo, mas que conduz à salvação definitiva.
O primeiro caminho consiste em aferrar-se à vida, vivendo exclusivamente para si mesmo: fazer do próprio “eu” a razão última e o objetivo supremo da existência. Este modo de viver, buscando sempre a própria ganância e vantagem, conduz o ser humano à perdição.
O segundo caminho consiste em saber perder, vivendo como Jesus, abertos ao objetivo final do projeto humanizador do Pai: saber renunciar à própria segurança ou ganância, buscando não somente o próprio bem, mas também o dos outros. Este modo generoso de viver conduz o ser humano à sua salvação.
Jesus fala a partir da sua fé no Deus Criador, Sustentador, Santificador e Salvador, mas suas palavras são uma forte advertência para todos: Que futuro espera uma Humanidade dividida e fragmentada, onde os poderes económicos buscam o seu próprio benefício; os países, o seu próprio bem-estar; os indivíduos, seu próprio interesse?
A lógica que dirige nestes momentos a sociedade é irracional. Os povos e os indivíduos estão a cair progressivamente na escravidão do “ter sempre mais”. Tudo é pouco para dar-se por satisfeito. Para viver bem, é necessário sempre mais produtividade, mais consumo, mais bem-estar material, mais poder sobre os outros, mais capacidade de aparecer atrativos aos olhos dos demais.
Procura-se insaciavelmente o bem-estar, mas será que não há uma progressiva desumanização? Quer-se “progredir” cada vez mais, mas qual é o progresso que leva a abandonar milhões de seres humanos na miséria, na fome e na desnutrição? Por quantos anos será possível desfrutar desse bem-estar, fechando as fronteiras aos famintos?
Se os países privilegiados só procuram “salvar” o seu nível de bem-estar, se não se quer perder o potencial económico, jamais se darão passos em direção a uma solidariedade a nível mundial.
Mas não nos enganemos: o mundo será cada vez mais inseguro e mais inabitável para todos e também para nós.
Para salvar a vida humana no mundo, é preciso aprender a perder.
António Pagola, em http://iglesiadesopelana3a.blogspot.pt/

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