«O sentido da vida humana não é simplesmente trabalhar e produzir, mas suscitar vínculos recíprocos até ao ápice do amor»
Há amores terrenos e, destes, não há necessidade que se diga nada, mas também há os amores celestes, e é destes que eu desejo falar. Acima de tudo, esclareço que, com essa estranha expressão, eu pretendo dizer os ideais na sua capacidade de exercer força. Por amores celestes, eu me refiro às ideias como forças não materiais que produzem em nós uma intensa atração, também provida de nuances eróticas, porque excita, inebria, conquista, seduz.
Falo de amor, porque o amor é a força mais poderosa que existe. Imagino que muitos não concordem com essa minha afirmação e eu não tenho dificuldade em entender o motivo, dada a presença devastadora do mal.
Estou convencido de que, apesar da sua grande força, o mal e o ódio são menos fortes do que o bem e o amor, porque só o bem e o amor são capazes de construir, de dar energia positiva, de infundir a vida e de durar.
Não subestimo a força do ódio, mas defendo que se trata de uma força segunda, que só pode destruir, nunca construir, e que, para existir, precisa dirigir-se contra a força primigénia e fundamental do amor, a única que sabe construir e edificar.
O ódio existe, age, às vezes vence, mas, mesmo assim, é sempre secundário, parasitário, rege-se sobre o trabalho alheio enquanto pretende negá-lo. O amor, em vez disso, é primário, criativo, não precisa de nada para existir, nasce de si mesmo. A diferença entre a força do amor e a do ódio é análoga à diferença entre uma criança que constrói castelos de areia e uma criança invejosa que só sabe destruí-los: o primeiro existe e trabalha para si mesmo, o segundo tem sentido em função do outro.
Marco Aurélio, imperador romano, afirmou: «Gegonamen pros synergian», expressão normalmente traduzida como “Nascemos para a colaboração”, mas que, neste contexto, é mais incisiva no seu sentido literal: «Nascemos para a sinergia.» O sentido da vida humana não é simplesmente trabalhar e produzir, consiste em suscitar uma energia mais refinada capaz de vínculos recíprocos até ao ápice do amor e, que, por isso, chama-se sin-ergia.
O cristianismo não diz nada diferente ao falar de “amor ao próximo”. Tal lógica sinérgica está tão radicada em nós que, quando podemos vivê-la em plenitude no amor concretamente correspondido, a vida floresce e sorri, e não há nada de mais completo e de mais alegre.
Trechos do livro do teólogo italiano Vito Mancuso Il bisogno di pensare [A necessidade de pensar] (Ed. Garzanti, 188 páginas)

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