Freira das Irmãs Contemplativas de São João, entre 1999 e 2010, Marie-Laure Janssens conta, numa obra tão provocadora quanto essencial, as graves disfunções que a levaram a deixar a sua congregação.
Marie-Laure Janssens, 42 anos, era uma freira contemplativa de São João. Hoje ela testemunha o controle mental de que foi vítima.
«Eu nunca me tornaria membro desta comunidade sem tirar disso algum benefício. A seita é ao mesmo tempo aquela que rouba e aquela que dá, ela ministra alternadamente o veneno e o antídoto.» A confissão de Marie-Laure Janssens é aterrorizante pela lucidez e remete o leitor – ainda mais o que é católico – a uma constatação arrepiante: a Igreja católica pode gerar dentro dela excessos sectários. Porque a "seita" de que fala Marie-Laure Janssens é a comunidade das Irmãs contemplativas de São João, na qual esta mulher de 42 anos - agora casada com dois filhos - permaneceu por onze anos.
Declara-se vítima de "abuso espiritual"
No livro que ela decidiu escrever junto com Mikael Corre, jornalista do semanário Pèlerin, a antiga religiosa mergulha nas 177 cartas que tinha escrito aos seus pais durante os seus anos na comunidade. Destas cartas que ela nunca tinha relido antes, ela extraiu passagens que, numa ordem cronológica, abrem cada um dos curtos capítulos deste livro, de cuja leitura é difícil sair sem arrepios.
Confrontando-se, não sem coragem, com o que ela dizia e sentia na época, Marie-Laure Janssens entrega-se a uma cansativa releitura e usa o bisturi para mostrar o funcionamento das irmãs tal como elas eram dirigidas na época: relações infantilizantes entre as religiosas e as suas superioras; proibição de expressar dúvidas sobre a sua vocação, atribuídas ao "demónio"; ensinamentos teológicos baseados unicamente nos escritos do fundador dos Irmãos de São João, Marie-Dominique Philippe, etc.
Ao longo do livro, há uma pergunta não cessa de atormentar o leitor: como é que uma jovem, formada pela Sciences-Po [Instituto de Estudos Políticos] de Paris, pôde entregar-se – a palavra não é à toa – a superioras que a faziam sofrer e ficar surda aos alarmes emitidos pelo seu corpo? Por que ela sepultou as dúvidas que não cessavam de trespassá-la? A falta de uma resposta óbvia diz tudo sobre o poder das manipulações mentais e da sua capacidade destrutiva.
É precisamente para "abrir uma reflexão nas comunidades", como ele diz, que Mikael Corre colocou o seu talento de escritor à disposição de Marie-Laure Janssens. Este livro, por mais violento que seja contra a atitude de certos bispos, acusados de não terem tomado o devido conhecimento do que estava a acontecer, não é uma acusação contra a Igreja em geral. Pelo contrário, a sua leitura é indispensável para quem quer entender como a mensagem do Evangelho pode ser desvirtuada. Realizado com uma notável capacidade de análise, Le Silence de la Vierge [O Silêncio da Virgem] é um livro necessário.
Responsáveis excluídas da vida religiosa
A comunidade das Irmãs contemplativas de Saint-Jean foi abalada por uma violenta crise quando, em 2009, o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, alertado sobre graves irregularidades internas, demitiu a sua direção superior e nomeou para a sua chefia uma nova prioresa geral que não foi aceite pela maioria. A comunidade – que antes contava com cerca de 350 irmãs – reúne hoje as 80 contemplativas que aceitaram as reformas exigidas por Roma e a cooperação com as autoridades da Igreja.
As outras 250 partiram para fundar uma nova comunidade na Espanha, "Maria Stella Matutina". O Papa Francisco acabou por destituir em 2014 as quatro principais responsáveis que se tinham oposto às decisões de Roma, entre as quais a fundadora, madre Alix (falecida em 2016) e a ex-mestra das noviças, Irmã Marthe, denunciadas no livro Le silence de la Vierge. Eles foram excluídas permanentemente da vida religiosa.
Bruno Bouvet, em La Croix


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