A irmã Karoline Mayer sente um "amor político" que a leva a "querer transformar a sociedade numa sociedade de bem comum"
Aos 74 anos, a irmã Karoline Mayer – a missionária alemã conhecida como "Madre Teresa da América Latina" – nunca se sentiu "menos do que um sacerdote ou um bispo". Com base nesta autoridade que lhe confere o "amor político" que sente pelo mundo e que a leva a "querer transformar a sociedade numa sociedade de bem comum", ela acaba de lançar uma advertência profética. A Igreja, dentro de quarenta anos, "transformar-se-á estruturalmente até não ser reconhecida", para acolher as mulheres, os não-católicos e outros grupos que historicamente ela marginalizou.
Estando em Barcelona para apresentar o seu novo livro O segredo é sempre o amor (Plataforma Editorial), a religiosa da Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo falou do seu desejo de que a Igreja "mude profundamente" para que "todas as igrejas cristãs – anglicana, presbiteriana, católica... – confluam numa grande igreja inspirada na mensagem de Jesus".
O sonho da missionária de que "todos os cristãos se sintam discípulos de Jesus, e tenham, como os budistas ou os muçulmanos, o seu próprio mestre" não lhe parece "tão utópico" – disse ela – "já que o Papa Francisco tende para esta ideia, e para que as religiões convivam em harmonia". Não só isso, de facto, mas também que o bispo de Roma – na opinião de Mayer – está tão consciente quanto ela de que a renovação profunda de que a Igreja precisa deve passar igualmente e de uma vez por todas por dar à mulher o lugar e a dignidade que lhe corresponde. Panorama diante do qual a religiosa convida as mulheres a "não se deixarem marginalizar, embora a hierarquia tenda a isso".
"O Papa também tomou uma posição em favor da mulher que muitos dos que ocupam altos cargos não entendem" – explicou a missionária – o que só "beneficiará a Igreja e fortalecerá todos os cristãos".
Embora tenha experimentado na própria pele horrores tais como a Alemanha do pós-guerra ou a ditadura de Pinochet, Mayer ainda mantém quanto ao futuro do mundo o mesmo otimismo que ela professa em relação ao futuro da Igreja. "O mundo se converterá num lugar mais justo para todos os que o habitam já que nós os humanos evoluímos, cada vez mais, para uma maior humanidade" – indicou, continuando nesta linha – embora atualmente "haja mais acesso a notícias que nos atormentam, e esta informação nos faz conscientes da necessidade de mudar coisas, de denunciar injustiças e de se envolver".
Ainda que seja verdade que "os mesmos horrores se repetiram na história", também é verdade que "o tempo também fez crescer os direitos humanos e se deram grandes passos para um maior respeito pela dignidade do ser humano" – argumentou a religiosa. Essa é a razão pela qual ela acredita que "embora ainda existam grandes diferenças, a humanidade está discernindo e punindo comportamentos, e pouco a pouco surgem iniciativas que geram consciência, que respeitam o próximo e o ambiente em que vivemos e que ajudam os outros".
Que estas iniciativas a favor da humanidade partilhada sejam organizadas dentro ou fora da Igreja, todas elas agradam à missionária Mayer, que diz: "No mundo prevalecem as obras de caridade, mas isto não serve se não houver justiça." E há mais: a religiosa pensa que a Igreja ainda sofre com o "vício" que ela apanhou "ao deter o poder nas grandes escolas" em determinadas épocas da sua história e "ao ser dirigida pelas classes altas", o que a torna cega para o facto de que a relação com o pobre somente por meio da caridade "nunca substituirá a justiça" que este reclama.
Embora o apelido de "Madre Teresa da América Latina" a tenha acompanhado durante os seus quase cinquenta anos de trabalho missionário no Chile, ele ainda incomoda Mayer a tal ponto que ela evita comparações com a santa, pois, como explicou, "Teresa especializou-se na caridade, de que precisam os que não se podem valer a si mesmos, e que é muito louvável, e eu luto para conseguir mudanças estruturais, político-sociais".
Por outro lado, o que Mayer professa é um "amor político" que a leva mais longe, ao motivo da marginalização dos que precisam de caridade e ao desejo de "transformar a sociedade em uma sociedade de bem comum".

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