«Jesus não impôs o celibato aos Doze», os presbíteros que casaram celebram 40 anos de "protesto conjunto"


«A Igreja Católica coloca condições a Deus e ensina-Lhe o que tem de fazer para “ordenar” bispos e presbíteros. Ensinaram a Deus o que Ele tem de fazer: dar o dom de ser solteiro pelo Reino e o dom do amor pastoral à mesma pessoa.

Não há respeito pela consciência pessoal que vai evoluindo e tem o direito de mudar diante de exigências humanas peremptórias (físicas ou psíquicas).”

Quarenta anos de Jesus “chamando à  porta” (Ap 3, 20).
A Igreja Católica, nas suas instâncias mais elevadas, não percebeu que é Jesus de Nazaré que bate à sua porta, nem O ouve, nem abre, nem, portanto, O deixa entrar em sua casa e cear juntos (Ap 3 , 20).

É Jesus, por meio dos sacerdotes casados, das suas organizações, da sua história e congressos…, é Jesus que vem batendo incansavelmente às portas da Igreja Católica.
Pede para restaurar a liberdade na disciplina: que o que foi “antes recomendado aos sacerdotes, e que depois foi imposto por lei a todos os promovidos à Ordem sagrada na Igreja Latina” (PO 16), continue a ser “recomendado”, respeitando assim o seu Evangelho (Mt 19, 12).

Paulo VI reconhecia que Jesus “não pôs esta condição prévia na eleição dos Doze, nem tampouco os Apóstolos a punham diante das primeiras comunidades cristãs (1Tim 3, 2-5, Tit 1, 5-6)” (Paulo VI: Sacerdotalis Caelibatus 5).

Jesus só o insinuou como opção livre para qualquer discípulo, se este o entendesse como dom divino e quisesse “tornar-se solteiro a si mesmo por causa do reino dos céus” (Mt 19, 11-12). Ele não o vinculou a nenhum ministério pelo reino.

A vinculação com o “ministério ordenado” é espúria em relação ao agir  dele. Hoje, Jesus ajudaria os pastores das comunidades a serem bons maridos ou esposas e pais e pastores da comunidade. O que fazem tantas igrejas cristãs, que “estão na dianteira” em termos de liberdade evangélica.

4-5 de novembro, uma celebração eclesial
Neste fim de semana (4 e 5 de novembro) o Moceop (Movimento pelo celibato opcional) celebrou perto de Madrid – no Centro de Congressos “Fray Luis de León”. Guadarrama (Madrid) – os quarenta anos da sua caminhada.

Lá os membros do movimento recordaram os seus “muitos dias, muita luta, muita fé e muita esperança…
Cantaram, dançaram e festejaramo esta longa caminhada com uma jornada de convivência, lembranças e ação de ação de graças”.
Obviamente, com a Ação de graças cristã, a Eucaristia, onde sentimos a presença ressuscitada de Jesus que acompanha e sustenta o trabalho para a vida, a liberdade, o amor a todos.
Seria bom que as comunidades cristãs se lembrassem disso e rezassem por intenções tão santas.

Milhares de sacerdotes católicos casados
A história dos sacerdotes casados ​​e das suas organizações atuais é um facto histórico na nossa sociedade e na Igreja. Eles estão presentes no mundo inteiro.

Em 25 de maio de 1986, foi constituída em Paris a Federação Internacional de padres católicos casados.
Em 1987, realizou-se o seu Primeiro Congresso em Ariccia (a trinta quilómetros de Roma). Dele participaram clérigos da Europa, da América, da África e da Ásia. Foi criada formalmente a FISCC (Federação Internacional de Sacerdotes Católicos Casados) e a sua revista “Ministerium Novum“.  
Outros Congressos foram realizados em: 
1990 (em Doorn, Holanda),
1993 (em Madrid),
1996 (em Brasília),
1999 (em Atlanta, EUA),
2002 (em Leganés, Espanha),
2006 (em Wiesbaden, Alemanha).

Neste último estavam presentes as quatro federações existentes:
a Latino-americana,
a Filipina,
a Europeia
e a do Atlântico Norte;
e nele foi constituída a Confederação Internacional.

O VIII Congresso, em 2015, teve lugar em Guadarrama (Madrid), no mesmo lugar onde nestes dias o Moceop celebra os seus quarenta anos de história.

Por seu lado, a América Latina já celebrou sete congressos:
em 1991 (Curitiba, Brasil),
em 1995 (Lima, Peru),
em 1999 (México),
em 2001 (Lima, Peru),
em 2005 (Asunción, Paraguai),
em 2006 (Quito, Equador),
em 2011 (Buenos Aires, Argentina).

Duas associações de padres casados ​​na Espanha
Ambas nascidas em 1977.

Uma de tendência mais conservadora (ASCE),
outra mais renovadora (MOCEOP).
Como veio acontecendo na Igreja desde os primeiros tempos,
uns acentuam mais o interior, a oração, o expor-se diariamente ao amor do Pai;
outros acentuam o esforço para transformar a vida e as estruturas para que “a nossa alegria alcance a plenitude” (1 Jo 1, 4).
Num ponto, uns e outros coincidem: não é vontade do Pai a imposição do celibato aos sacerdotes e bispos da Igreja. Todos pedem que sejam renovadas a teologia e a disciplina do ministério, voltando ao espírito de Jesus.

Um dos fundadores da ASCE e atual presidente, José María Lorenzo Amelibia, mantém o blogue Sacerdotes secularizados, mística y obispos, em Religión Digital, dedicado à espiritualidade e para difundir a necessidade de corrigir a “injustiça teológica” de impedir o exercício do sacramento da Ordem a padres casados.

O MOCEOP, agora coordenado por uma mulher, Tere Cortés, esposa de um padre casado, está presente na Internet “moceop.net” e publica uma revista trimestral (“Tiempo de Hablar. Tiempo de Actuar”) que já está no número 150. Esta revista recolhe a vida destes homens, reflexões e encontros de todos os tipos.

Nela, percebem-se
a seriedade das suas abordagens,
a solidez da sua teologia,
as suas contribuições teológicas para o ministério eclesial, etc.

“Provocando e exigindo uma resposta” desde há séculos
A história destes cristãos, consagrados como servidores das comunidades cristãs, está “provocando e exigindo uma resposta“. “Provocação” que vem
desde há muito tempo atrás,
desde que esta história celibatária começou a andar.
Desde que começou a ser inoculado o erro de que “uma pessoa não pode estar casada e ser perfeita”.
Desde os rigoristas do século II que começaram a exigir de todo o cristão a continência (“enkrateia”) sexual: encratismo, gnosticismo, montanismo…
Desde que a Igreja, pelos seus dirigentes mais universais, defendeu e até decretou que “todo padre que dormir com a sua esposa na noite anterior a rezar missa perderá o seu emprego” (séc. IV).
Desde que se cultivou a presumida “tradição apostólica” sobre a famosa “continência” dos Apóstolos.
Tradição que até hoje alguns querem defender.
Com o intuito de proteger a lei,
violentam textos
e até contradizem a liberdade que respira o capítulo sete da primeira carta aos Coríntios sobre ser solteiro pelo Reino.

Uma mulher, movida pelo Espírito
María (mariaercilia6@hotmail.com) convencida de que “o padre casado é uma riqueza para as comunidades, para a teologia e para a igreja em geral”, reagiu a um post meu de dezembro de 2013, repreendendo a hierarquia católica:

“Quando terminará esse capricho da nossa hierarquia em impor obrigatoriamente o celibato?
Quantos talentos e servidores se estão perdendo na Igreja católica?
Quando acabará a injustiça e a incoerência de admitir padres casados ​​entre os convertidos e não admitir os próprios?
Quando perceberão o pecado gravíssimo que cometem ao privar muitas comunidades de assistência espiritual?
Roguemos para que Deus ilumine Francisco e seus colaboradores para que se deem conta de tamanha injustiça e incoerência…”.

Essa mulher lembra a Judite de Betúlia:
“Ouçam-me, chefes dos habitantes de Betúlia, porque não são retas as palavras que vós dirigistes diante do povo… Porque, quem sois vós para tentar a Deus no dia de hoje e para vos colocardes no lugar de Deus entre os homens?… Não comprometais os planos do Senhor, nosso Deus, porque não se pode ameaçar ou julgar a Deus como a um homem. Por isso, na espera da sua salvação, invoquemo-lo a nosso favor e ele ouvirá a nossa voz se lhe agradar “(Judite 8, 11-12, 16-17).

A Igreja Católica coloca condições a Deus
e ensina-lhe o que tem a fazer para “ordenar” bispos e sacerdotes.
Se Deus não concede o celibato pelo reino, as comunidades ficam sem Eucaristia. O “fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 20), só vale se Deus conceder o celibato por toda a vida a quem preside a comunidade.

Ensinaram a Deus o que ele tem de fazer: dar o dom de ser solteiro pelo reino e o dom do amor pastoral à mesma pessoa. Não há respeito pela consciência pessoal que vai evoluindo e tem o direito de mudar diante de exigências humanas peremptórias (físicas ou psíquicas).

A brutalidade da lei envolve tudo, o humano e o divino:
exílios forçados,
esposas invisíveis,
filhos clandestinos,
vida dupla,
escândalos,
o direito da comunidade de ter pastores e de celebrar a Eucaristia, etc.
Rufo González, em periodistadigital.com.
Tradução: Orlando Almeida

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