Missa ecuménica: O que é? É possível? É máxima ambição? É utopia?

Existem tradições diferentes que se referem, todas, à “ceia do Senhor” e à “fração de pão”, e que vivem essa celebração, mesmo que de modo diferenciado, mas como fonte e ápice da comunhão eclesial. O paradoxo é que, justamente no coração da comunhão, os cristãos experimentam a divisão e a hostilidade.

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Sabemos muito bem que as diversas tradições cristãs, depois de incompreensões, lutas, divisões até mesmo sangrentas, silêncios e indiferenças, há algumas décadas elas trabalharam também para recuperar a comunhão perdida. Não é nada escandaloso que a busca pela comunhão queira ter uma relação com a celebração da santa ceia, da santa missa, da sagrada liturgia. E esta não deveria ser considerada apenas como a “máxima ambição”: não é verdade que a “comunhão eucarística” se situa apenas no fim do percurso, como o prémio final da comunhão reconstruída. Não, o contrário também deve ser verdade. 

Pode ser verdade que tradições diferentes, linguagens diferentes, imaginários diferentes, que se reconhecem todos reciprocamente no batismo em nome de Jesus Cristo, possam relançar a sua comunhão “a partir” da ceia do Senhor. O facto de a missa e a liturgia poderem se situar não no fim, mas no início, deveria ser uma possibilidade a se redescobrir e valorizar. Como um modo de iniciar e de se deixar iniciar, e não como um modo de terminar.

No entanto, isso não descarta que o esclarecimento necessário – digo isso não para chegar, mas, pelo menos, para continuar – dirá respeito pelo menos a três níveis de experiência da liturgia eucarística, sobre os quais as tradições se diferenciaram altamente e que eu gostaria de esquematizar assim:

a) O Corpo de Cristo – sacramental e eclesial – do modo como é compreendido e vivido;

b) A estrutura da celebração e a sua relação com o “sacrifício de Cristo”;

c) Os ministérios dotados de autoridade e o seu reconhecimento recíproco entre as diversas confissões.

O que podemos identificar nesses três níveis como problemático ou como inaceitável não deveria, absolutamente, ser resolvido antecipadamente, quase como uma condictio sine qua non: o verdadeiro divisor de águas não é esse “prévio acordo doutrinal” que seria capaz de habilitar uma práxis litúrgica comum. Em vez disso, como “preâmbulo”, deveria amadurecer nas diversas confissões a disponibilidade a ler as diferenças não como “falta de comunhão”, mas como “diferença na comunhão”.

Diversas teorias sobre a presença, diversas compreensões da relação com o sacrifício e diversos modos de exercer autoridade foram percebidos na história como graves motivos de “ruptura da comunhão”. Cada um se sentiu negado pelo outro. Hoje – na recíproca disponibilidade, que custa sempre tanto a todas as partes envolvidas – essas mesmas diferenças podem se tornar motivos de “riqueza na comunhão”.

O que muda, acima de tudo, é a percepção do outro e do seu mundo. Para entrar em sintonia, para perceber o outro na sua riqueza, para construir percursos reais de comunhão, não devemos apenas nos preocupar em traduzir as tradições alheias nas nossas categorias, e as nossas nas alheias, mas em “aprender a sua língua, com todas as suas regras”.

Para usar a bela imagem proposta por G. Lindbeck: faz-se ecumenismo não “traduzindo pensamentos e conceitos diferentes”, mas “aprendendo a falar línguas diferentes”. Para fazer isso, não devemos apenas estudá-las, mas também devemos praticá-las.

A prática comum – da oração e da liturgia, da fé e da caridade – é uma das condições para esperar e para fazer a comunhão. Não se trata, portanto, de inventar uma “missa ecuménica”, mas de reconhecer que a Eucaristia é, em si mesma, visceralmente, uma questão de unidade, uma questão ecuménica.

Andrea Grillo, em Come se non

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